Juremir Machado da Silva

Prêmio Cágado

Prêmio Cágado



Palomas adora prêmios. A distribuição anual de troféus e medalhas faz parte do folclore palomense. Os prêmios literários e jornalísticos estão entre os mais desejados. Por escritores e jornalistas. A população nem fica sabendo. O principal prêmio literário nacional de Palomas é o Prêmio Cágado, que sempre chega atrasado, tarde demais ou só distingue quem dá passos estéticos muito pequenos. Entre os prêmios locais, destacam-se o ARIBS e o Assoreados. Como todos sabem, em Palomas a Rede Baita Sol fascina os “intelectuais” e manda até chover quando isso interessa ao agronegócio. Em 2009, por exemplo, o patrono da Feira do Livro de Palomas, escritor gente boa e nascido na Grande Palomas, era, por acaso, da RBS. Já o Prêmio Assoreados, que privilegia livros áridos, conseguiu ter quatro jurados jornalistas, em cinco, dos quadros da Rede Baita Sol, que é mais folgada e espaçosa que bombacha de “se fresquear” em carreira.
Como são desatentos esses jurados: premiaram um trabalho da própria entidade organizadora do Assoreados. Como diz o ditado, nunca se é melhor servido do que por si mesmo. Ou estou enganado? O Cágado e o Assoreados têm um ponto em comum: adoram premiar livros que não tenham uma só frase em ordem direta ou que façam dormir ao final do primeiro parágrafo. Se não tiver parágrafos, melhor ainda. Aí já é obra-prima. Se for obscuro, como se os personagens andassem à luz de uma lamparina e dizendo coisas meio tortas, melhor ainda. Poucos fizeram mais pelo combate à insônia em Palomas do que Cágado e Assoreados. Carlos Solito, escritor maldito, já ganhou o Assoreados. Mas não foi buscar. O Cágado é muito rápido para ele. No ARIBS, que anda fazendo agrados a outros para não ser mais acusado de favorecer a Rede Baita Sol, ele nem cisca. Nem se inscreve mais. Solito é ruim, chorão, ressentido e “morrinha”. E metido a escrever crônicas. Não passava nem na primeira triagem do ARIBS. Para ganhar o ARIBS é preciso escrever crônicas originais sobre passarinhos na janela ou menininhas atravessando ruas movimentadas. Algo assim. Sentimental. Positivo.
Enfim, crônicas edificantes, histórias de superação individual, bons exemplos para a coletividade, aulas de moral e cívica, uma mistura de José de Alencar com Rubem Braga e um ar de melancolia. Gasta-se muito açúcar para ganhar o ARIBS de crônicas. Em Palomas, os “grandes” não concorrem aos premiozinhos locais. Um Falsíssimo, o louco Pablo, gente assim, voa mais alto. O butim fica para a classe média literária e jornalística. Na porão, sempre reclamando e denunciando para encobrir a própria mediocridade, ficam os perebas como Solito, que, no máximo, poderiam beliscar um segundo lugar. Na verdade, Solito reclama por hábito, pois, certamente por orgulho, não participa mais por conta própria das disputas. As editoras, porém, podem jogar-lhe algumas bolas nas costas. Em Palomas, os prêmios são um “sistema de hierarquia social”. Assim como o sexo e a posse dos bois.