Juremir Machado da Silva

Prêmio Cágado

Prêmio Cágado

O cágado de Palomas

Palomas é um lugar literário. A sua feira do livro repercute em toda a grande Palomas, da Florentina ao Alegrete, passando pela Madureira e Caverá. Os palomenses adoram competir. Disputam tudo, até quem cospe mais longe. Na falta de bola, a gurizada joga com um porongo. As três principais competições, porém, são: carreira de cancha reta, truco e concursos literários. O principal prêmio literário nacional é o Cágado, atribuído por uma comissão de notáveis, que jamais se fez notar por alguma obra, ao escritor mais lerdo ou mais cristalinamente obscuro. Para ganhar o Cágado é preciso estar de acordo com um dos seguintes requisitos: escrever livros que preferencialmente não sejam lidos por mais de cem pessoas, ou não sejam compreendidos, e encantem mesmo somente outros escritores da turma do ganhador. Batata!
Há exceções, salvo na ficção de verdade. Outra maneira de ganhar o Cágado é ter um programa literário na matriz carioca da Rede Baita Sol. O Cágado é cantado em prosa e verso pelos resenhistas do jornal Falha de Palomas e da revista Olha, mais conhecida como Vesga, que costuma enxergar nos premiados obras-primas, embora algumas nem cheguem a obras e outras não passem de primas. O cânone literário consolidado pelo cágado privilegia uma forma conhecida como “escrita subjetiva”, “adensamento da linguagem” ou simplesmente “narrativa nebulosa”. Nunca se sabe exatamente o que está acontecendo nem quais são as motivações dos personagens. Tudo deve ser vago, estranho, pesado, melancólico, como se todos tateassem na penumbra em busca de algo perdido, algo que obviamente não é revelado. Parece que se trata de um modo refinado de combater o “realismo estéril”.
Não é a primeira vez que escrevo sobre o Cágado. Fico deslumbrado com a capacidade dos jurados palomenses de escolherem sempre o que me parece pior. Nesse quesito, Palomas está em sintonia com a França. Michel Houellebecq ainda não ganhou o Goncourt. Seus livros têm vários defeitos: vendem muito, são claros, com um texto desprezado pelos adoradores de frases floreadas ou de neologismo como “plano”, todo mundo entende, esbanjam ironia e nunca se vê um personagem perdido numa espécie de túnel negro narrativo. Alguns ficam tão furiosos com essa audácia descritiva que acusam Houellebecq de não fazer literatura. Palomas segue a mesma linha. O público costuma ignorar solenemente os premiados com o Cágado.
Neste ano, vale lembrar, Palomas deu um salto à frente. O Jornal do País, vitrine da Rede Planeta, abriu espaço para o anúncio do principal ganhador do Cágado. Por coincidência, o vencedor era repórter do Jornal do País da Rede Planeta. Por um dever de consciência, devo dizer aos desavisados, que qualquer semelhança entre o que acontece em Palomas com outros lugares é, obviamente, mera repetição dos fatos. As críticas ao Cágado são injustas. Coisa de ressentidos. Jamais se ouviu, por exemplo, um ganhador do Cágado reclamar. Prova de que toda crítica é papo de perdedor. Como dizia Guy Debord, “o que aparece é bom, o que é bom, aparece”. Sempre.