Praia e gostos pessoais
O passar dos anos faz a gente ficar com manias. Eu adoro praia. Especialmente quando posso vê-la da janela do hotel. É por isso que me instalo em Ipanema, de frente para o mar. Posso ver a agitação da praia, no meio da tarde, pela vidraça e com o ar-condicionado a mil. De manhã, claro, vou para as areias ver de perto o que as cariocas têm. Num lugar desses, óbvio, tem gente do mundo inteiro. Hoje, por exemplo, havia muitos bonés do Internacional. As camisetas do Grêmio estavam sumidas.
Na praia, leio e começo a pensar na vida. Sei que é pouco original. Mas não estou com saco para ser original. Penso, por exemplo, nos gostos pessoais. Por que alguém gosta de a e não de b? Meu amigo Luis Gomes adora o escritor Paul Auster. Eu gosto de Auster. Mas logo fico saturado daquela sua sofisticação novaiorquina. Meu amigo Álvaro Larangeira adora Nelson Rodrigues. Eu gosto de Nelson Rodrigues. Mas logo fico cansado do seu reacionarismo, dos seus exageros e das suas obsessões sexuais. Luis Gomes tem mente filosófica. Deve ser por isso que gosta de Auster. Larangeira é barroco. Talvez isso explique sua paixão por Nelson. Gente de bom gosto adora Machado de Assis, a quem chama afetadamente de Machado. Eu gosto de dois ou três livros de Machado de Assis. Mas em seguida me canso do seu estilo século XIX e, principalmente, do romantismo chato da primeira metade da sua obra. Tem mais chato, certo: tem José de Alencar.
Depois da segunda caipirinha e da visão de duas “garotas” capazes de dobrar o pescoço da praia inteira, comecei a teorizar sobre o relativismo. Gosto é relativo. Mas nem sempre. Peguem uma foto da Madame Mim e outra da Gisele Bündchen e mostrem para dois milhões de pessoas de todas as partes dos mundo, inclusive de culturas com quase nenhum contato com as sociedades ditas civilizadas. Gisele será considerada mais bela por 100% dos entrevistados. Talvez dois ou três indivíduos, por razões facilmente explicáveis, cravem Madame Mim. Agora, diminuindo a discrepância, tudo muda. Peguem uma foto da Juliana Paes e outra da Gisele Bündchen. Será páreo duro. Brasileiros bebedores de cerveja tenderão a escolher Juliana. Ingleses caçadores de raposa ficarão com Gisele.
A pesquisa concluirá o que todos sabemos: gosto é relativo. Varia de cultura para cultura e de época para época. Mas nem tanto. Só quando a discrepância é menor. Claro que há louco para tudo e alguns podem preferir Madame Mim. Pensando bem, ele tem seu charme. Esse tipo de reflexão vale para a literatura e para o resto, dependendo da qualidade da caipirinha e do campo de visao. Eu, no fundo, não admiro como fã nenhum escritor. Gosto de um livro num escritor, de uma frase noutro, de um fragmento aqui, um fragmento ali, mas nunca do todo. Jamais encontrei um artista que me convencesse inteiramente. Ninguém é genial o tempo todo. Fico impressionado com quem admira aquele sempre e devotamente. Não consigo. Dizem que sou invejoso.
Não duvido. No fundo, eu só gosto mesmo é de mim.
Narcisismo? Megalomania? Cara de pau?
Tudo isso e mais um pouco.
Obsessão de artista que acredita na sua obra contra tudo e contra todos e não se importa de andar na contramão. Isso não significa que eu não saiba admirar.
Admiro os radicais do presente.
Eu nunca dedicaria a minha vida a Platão, Aristóteles, Kant, Nietzsche, Flaubert, Baudelaire ou qualquer grande do passado. Gosto deles. Mas logo eles me entendiam por não falarem do tempo que é o meu.
Só o presente me interessa realmente.
Tenho admirado profundamente os escritores Michel Houellebecq, Maurice Dantec, Chuck Palahniuk, T.C. Boyle, Cormac McCarthy, Thomas Pynchon, Jean-Patrick Manchette e, para espanto de muitos, cada vez mais um velho e até menosprezado escritor chamado Georges Simenon.
Sem dúvida, posso ser afetado e falar da minha relação literária com Baudelaire, que traduzi, com Marcel Prost, que li e reli, com Rimbaud, cuja maldição invejo, com Balzac, pai de todos os contadores de histórias, com Shakespeare, gênio dos gênios, mas, em algum momento, todos me cansam, pois são de outro tempo.
Nunca consegui realmente admirar José Saramago, cuja grandiloquência me embrulha o estômago. Amo seu compatriota Lobo Antunes. Tente 23 vezes terminar um livro de Philip Roth. Não tive êxito. Só a ironia radical e niilista me convence. Todo o resto me encanta pouco.
O que essa bundas todas não fazem a gente dizer?
O resto é caipirinha.