Professores armados
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Professores armados

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 Cada cultura tem sua lógica.

Aprendi isso estudando antropologia. Olho minha estante e vejo livros que me acompanharam durante belos anos de juventude e de sonhos intelectuais, obras de Lévi-Strauss, Norbert Elias, Louis Dumont, Malinowski, Clifford Geertz, Margaret Mead, Michel Foucault, Marvin Harris, Gilberto Freyre, Gilberto Velho, Roberto DaMatta e tantos outros. Uma bela miscelânea que me deixa nostálgico e com vontade de reler tudo. Sigo em frente. A vida continua. Estou velho para remoçar. Seria possível aprender também certas coisas acompanhando o noticiário internacional.

A lógica cultural dos Estados Unidos sempre me fascina. Ela parece desafiar o bom senso e a própria ideia de lógica. Ou minha lógica é que não tem lógica. Claro que digo isso e me puxo as orelhas. Cada qual com sua lógica. Em cinco anos, aconteceram 242 ataques armados em escolas e universidades norte-americanas. Em mais da metade dos ataques registrados até 2015 a arma utilizada foi obtida dentro da casa do agressor. Mesmo assim, limitar o acesso a armas é um tabu nas terras do Tio Sam (assim se falava quando muitos pegavam em armas). Até aí, tudo bem, ou seja, tudo mal, nada a fazer ou pouco a obter.

O interessante da lógica cultural dos Estados Unidos é que ela sempre pode ficar aparentemente mais, para a minha lógica, absurda. Meu etnocentrismo é incontrolável. Diante do perigo que representa uma inocente sala de aula para os alunos, alvos potenciais de colegas ou de estranhos, estuda-se armar os professores. Dá para imaginar um professor ensinado matemática de revólver na cintura ou com uma metralhadora ao alcance da mão? Ou a arma do professor ficaria na gaveta da sua mesa? Ao menos sinal de perigo, o professor sacaria sua pistola e dispararia contra o agressor sendo ele seu aluno ou não.

Não estou mentindo. Li isto: “Segundo levantamento recente do Centro de Pesquisas Pew, 66% dos que possuem ao menos uma arma apoiam a ideia de que professores e funcionários portem armas em escolas de ensino primário para defender alunos”. É uma concepção de mundo. Uma ideologia. É possível que tenha a sua eficácia e a sua razão de ser. Seria uma pedagogia da defesa armada? Uma escola engatilhada? Uma forma de empoderar o professor? Ou uma confissão total de fracasso?

O mundo é pura diversidade apesar da globalização. Pego um dos livros da minha época de estudante de antropologia, “Orientalismo – o Oriente como invenção do Ocidente”, de Edward Said, e leio: “Comecei com a suposição de que o Oriente não é um fato inerte da natureza. Não está meramente , assim como o próprio Ocidente não está apenas (...) Os lugares, regiões e setores geográficos tais como o ‘Oriente’ e o ‘Ocidente’ são feitos pelo homem”. Nada mais óbvio. Nada menos evidente. É triste falar disso ainda mais quando o Brasil está nas manchetes internacionais por um ataque armado em escola com uma pistola levada de casa. Precisaremos de detectores de metal na porta de cada sala de aula, de professores armados ou de nova mentalidade? A humanidade sai reprovada quando precisa de professor armado na aula.

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Hoje estarei em Passo Fundo, no Seminário do Magistério, falando sobre “O papel do professor na transformação da sociedade”.