Quando a direita escreve a história
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Quando a direita escreve a história

Roteiros do revisionismo atual

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Houve um tempo em que a esquerda era relativista. A direita, absolutista. Mudou.

Foram anos ouvindo os discursos da direita sobre a importância da educação, da moralidade, da transparência, do bom uso da gramática e da coerência. Bastou Jair Bolsonaro, capitão de extrema-direita, ser eleito para tudo mudar. A direita louvava os investimentos da Coreia do Sul em educação. Bolsonaro assumiu e tratou de “contingenciar” as verbas das universidades. Pode asfixiá-las por excesso de contingenciamento. A direita, com razão, atacava a imoralidade dos governantes, atolados em escândalos de corrupção. Agora, silencia sobre as denúncias do Ministério Público do Rio de Janeiro, que põe Flávio Bolsonaro, filho do presidente da República, como suspeito de ter abrigado uma “organização criminosa” no seu gabinete de deputado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Silencia ou pretende ir às ruas blindar o governo contra os seus críticos.

      Bolsonaro não se dá bem com a gramática. Na última quinta-feira, maltratou uma repórter da Folha de S. Paulo e o subjuntivo. Disse: “Tem que entrar de novo numa faculdade que presta”. Queria certamente dizer uma faculdade que preste. Nada de novo na frente de combate cultural. Antes de chegar ao poder, a direita dava aulas de economia, de português, de gestão e de moral. Era só fazer o que ela dizia para tudo se transformar. Uma das suas melhores ironias alvejava políticos habituados a dizer que nada sabiam do lodo dos seus gabinetes. Nessa época, a direita era favorável a tal “teoria do domínio do fato”. Ou seja, só acontece se o chefe souber. Flávio Bolsonaro pode não saber o que supostamente fazia o tal Queiroz?  O pai pode não saber dos negócios do filho? O chefe pode agora se eximir da responsabilidade sobre os subordinados? Não sei.

Naqueles tempos de discursos pontificantes, a direita queria celeridade, justiça ágil, polícia rápida, julgamentos expeditivos, prisões provisórias longas, conduções coercitivas imediatas, coisas assim. Eram marcas da exasperação com as chicanas jurídicas. Já não é mais assim. Michel Temer entrou e saiu duas vezes da cadeia como um relâmpago. Nenhuma panela ecoou. A justiça voltou a ser cautelosa e “garantista”. Queiroz, o faz-tudo de Flávio Bolsonaro, ainda não apareceu para depor. Enviou uma explicação esfarrapada por escrito e escafedeu-se. Foi cuidar da saúde abalada por tantas emoções. Não dá bola para o MP. Onde andará? O que comerá? P que faz?

      Queiroz apresentou-se na televisão como vendedor de carros. Nem entrou na pista. Derrapou. Flávio Bolsonaro surge agora como um “case” de sucesso no ramo imobiliário. Compra e venda de imóveis com ganhos estratosféricos. Negócios do Rio de Janeiro. Compra por pouco, vende por muito, tudo em pouco tempo, negociando com empresas situadas em paraísos fiscais. Parece que até os chineses querem saber como se ganha dinheiro assim. Noutra frente de coisas inusitadas, Jair Bolsonaro confessou ter feito um acordo com Sérgio Moro. O juiz largaria a toga, viraria ministro no bolsonarismo e ganharia a primeira vaga disponível no STF. Ficou ruim para Moro. O ministro da Justiça refugou a narrativa por demasiado verossímil. Bolsonaro recuou.

Quando a direita escreve a história, os negros são equivalentes aos brancos na infâmia da escravidão. O aspecto marginal, como alguns negros terem tido escravos no Brasil, perversão do sistema, iguala-os aos seus exploradores. Relativização interesseira para glória dos escravizadores. Quando a direita escreve a história, não há racismo, apenas problema social, embora os dados mostrem que negros ganham menos, vivam menos, sejam mais assassinados e mais excluídos. Homens brancos não morrem por ser homens brancos. Mulheres são mortas por ser mulheres. Negros morrem por ser negros. Quando a direita escreve a história, golpe deixa de ser golpe. As evidências históricas tornam-se subjetivas. Vale a versão de cada um. Quando a direita escreve a história, neutralidade é o nome que dá à adoção dos seus pontos de vista.

      A coerência manda lembranças. Está vivendo na clandestinidade. É vizinha do Queiroz.

Não admite toma-lá-dá-cá. Faz “nova política”. E nova história. Uau!