Quando entrar setembro
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Quando entrar setembro

Canção e imaginário no cotidiano

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  Todo ano, pelo meio de agosto, eu me lembro de Beto Guedes e canto: “Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos”. Sei da importância das estações, mas o inverno não mora no meu coração. Todo ano, quando o frio me desespera, eu cantarolo: “Já choramos muito/Muitos se perderam no caminho/Mesmo assim não custa inventar/Uma nova canção/Que venha nos trazer/Sol de primavera”. Setembro é o mês que eu mais espero, cujas luzes e perfumes me devolvem a crença no futuro e o amor pelo presente. Todo ano, porém, eu faço as contas e choro pelos amigos que ficaram pelo caminho.

      O tempo passa, choramos cada vez mais. Depois dos cinquenta anos, temos listas longas de gente querida que não veremos mais. Setembro ressurge justamente como a flor que desabrocha, a árvore que se ergue para receber o carinho do sol, as aves que gorjeiam como em velhos poemas. Todo ano, quando os dias sofrem com o vento que parece soprar da minha infância, eu escuto Beto Guedes: “Já sonhamos juntos/Semeando as canções no vento/Quero ver crescer nossa voz/No que falta sonhar”. Nunca fui a um show de Beto Guedes. Sei apenas que ele nasceu num 13 de agosto, mês, segundo as más línguas ou a sabedoria popular, de desgosto. Não escuto outras músicas suas. Contento-me em admirá-lo a cada inverno como o cantor de um hino.

      Todo ano, no Esfera Pública, na Rádio Guaíba, eu rodo Beto Guedes para saudar a chegada de setembro. Às vezes, mesmo antes, para tentar apressar a vinda do sol da primavera. Setembro para mim é tempo de poesia, de esperança, de alegria, de retomada, de reencontros, de natureza viçosa e de abrir as “janelas do meu peito”. Fico piegas, debulho lembranças invernais, contabilizo apostas primaveris, projeto verões incandescentes e comemoro a distância do próximo inverno. Meus pés, depois de meses enregelados, despertam.

      Planejei um futuro improvável: migrar todo inverno como uma ave em busca de calor e de paisagens ensolaradas. Pássaros velhos, ao que parece, em tempos de reforma da Previdência, perdem a capacidade de voar longe. Só lhes resta aguardar que setembro venha lhes fazer crer outra vez na magia do sol. Há, na canção de Beto Guedes, dois versos que me inquietam: “A lição sabemos de cor/Só nos resta aprender”. Eu nunca aprendo. Sei que deveria aprender a viver cada inverno como um tempo especial de recolhimento e cada primavera como um renascimento. Com o passar dos anos, contudo, eu me apego ao que ficou no caminho.

      Nestes dias de ódio nas redes sociais, cada vez mais antissociais, e de confronto ideológicos nas ruas da vida, eu me pego idealizando como um velho adolescente: “Quando entrar setembro/E a boa nova andar nos campos/Quero ver brotar o perdão/Onde a gente plantou/Juntos outra vez”. Setembro é uma utopia. O sol da primavera deveria banhar cada um de nós de tolerância e generosidade. Como um antigo vinil riscado, fico repetindo: “Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos”. É dos campos que sinto falta. Esses campos que são miragem, metáfora, contingência, lugar e eterna saudade.