Quando o pior acontece

Quando o pior acontece

Notícias sobre mães que matam filhos

publicidade

    Eu nada sabia, que é uma forma complicada de dizer que eu não sabia nada, expressão redundante e convincente por isso mesmo, quando fiquei sabendo que o saber, definitivamente, liberta. Eu me sentia preso. Saber ou não saber, dizem, é relativo. A quê? Eu sei do calor e do frio, dois termos muitos úteis quando não sabemos do que falar. Eu odeio o frio. Basta dizer isso para eu garantir semanas de interação. Antes, era de conversa fiada, expressão que não saberia usar os talhares nem dar o nó na gravata. Uns dizem que o governo é perverso. Outros, que é injustiçado. A escolha das palavras, se escolha há, diz alguma coisa sobre nós. Chego a me perguntar, quando largateio na minha poltrona vermelha, se escolhemos as palavras ou se elas nos escolhem. Palavra dita, marca na testa.
    Volta e meia se fica sabendo de uma criança assassinada por mãe. O que sabemos do ser humano? Parece que Darwin considerava que um chacal dorme em cada um de nós. Não sei se os chacais matam seus filhotes. Os gregos recomendavam como caminho para a felicidade que dominássemos nossas emoções e instintos. Tarefa fácil, hein? Quem decifrou a esfinge foi um cara chamado Sigmund. Um tal de Freud. A simples ideia de uma criança assassinada provoca um arrepio. Ficamos perplexos e cheios de questões, que se resumem a uma só: por quê? Para Aristóteles a construção da felicidade era um trabalho permanente: “o bem dos homens é a alma trabalhar no caminho da excelência uma vida inteira”. A felicidade seria aliada da amizade e da razão, não dos sentidos, volúveis e insaciáveis.
    Que máquina bizarra é o cérebro humano! Não controla o seu controlado. O centenário Edgar Morin nunca deixa de repetir que somos homo faber, ludens e demens. Produzimos, jogamos, enlouquecemos. O leitor dirá que não padece desse mal. Ainda bem. Certas imperfeições do mundo poderiam não existir. Criança não deveria sofrer. Se faz parte da regra do jogo sofrer, que começasse na idade adulta. Pai e mãe poderiam estar programados para jamais cometer infanticídio. Já temos dores demais no mundo. Seria uma pequena grande reforma que mudaria a nossa existência. Sérgio Buarque de Holanda enganou todo mundo ao definir o brasileiro como homem cordial. Vaidosos, achamos que cordial era empregado como sinônimo de gentil, amável, simpático, cordato. Era só uma maneira astuciosa de dizer que agimos mais com o coração do que com a razão. Péssimo sinal.
Não sei se agimos mais com a razão ou com o coração. Cada um de nós é, ao mesmo tempo, todo e parte do todo, ilha e continente, mistério. Sei que quando uma mãe mata um filho não agiu nem com a cabeça nem com o coração. É claro que agora estou usando as mesmas palavras com outros sentidos. Como o destino escolhe alguém para cometer o inominável? Será isso também a liberdade? Cometer o que aprisiona e desumaniza para sempre? Quantas prisões nos cerceiam. A doença é uma delas. O irreparável é outra. Eu queria um mundo em que a inocência das crianças tivesse proteção especial contra todos os males e todo dia de inverno tivesse horas de sol.

 


publicidade

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895