Juremir Machado da Silva

Quase música em tempos silenciosos

Enquanto o dia não chega

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Há quem veja perda de tempo nesta lida diária com a subjetividade. O problema é que caminho. Enquanto ando, sou tomado por imagens. Estou grávido, grávido de um poema que não quer nascer. Estou ávido, ávido de uma gema que me faz morrer. Quem não pensa coisas assim enquanto avança para perto de casa. Alguns, claro, pensam no aumento da taxa Selic. Eu sou menos realista. Conto os anos, os passos e as risadas. Parece melhor do que morrer sem fim, morrer sem sempre, morrer crescente, uma morte áspera, na rua da frente, sob a luz econômica da nova prefeitura, junto à próspera agência eletrônica.

Sei que nada disso impede os delírios do Paulo Guedes. Mas sinto a dor mais dura, a violência mais pura e pergunto: onde estão os versos? Na minha modesta aplicação não estão. Esse poema mexe há meses em mim. Sim, ele cresce como uma árvore, um bicho grave, uma nostalgia, assim como se, de repente, a palavra expirasse e a luz naufragasse num poço com um jasmim. Então ligo para o banco. Um poema é quase tudo, mas estou quase mudo ouvindo a gravação. Poema é quase vida, quase, quase lida, quase música, dor sincrônica, certeza atônita, tristeza única. Tantos dias e noites, sob os seus açoites, eu o persigo, eu o mastigo e o cuspo no lixo como uma bagana, o corpo de um bicho, uma paixão, um vício, nada mais que o início de algo que eu sinto, experimento, pressinto, uma ideia que não engana, mas não consigo parir. Então eu ouço: “Vamos estar transferindo a ligação”.

Refluo como um barco, traço na rua um arco, dobra-me a força do vento, vem a passagem do tempo, ando como um animal, estranho, anormal, prenhe de um deserto, dando por muito certo o nascimento do mal. Por fim, eu me afasto como um navio sem mastro, a estátua de um astro. jeans de cintura baixa, tiro uma grana no caixa, um lobo sempre  casto tragado pelo amanhecer. Preciso desse poema como se de cada fonema, como se só desse tema dependesse a majestade, a verticalidade do poste que se apaga com o sol. Eu ouço: deixe o seu recado, por favor. Depois do bip. Espero, ensaio, preparo e desisto. Até mais.

Deixo para trás os caules, as lagoas, pátios, roldanas, os arames, os poços, badanas. Sobre o bocal dorme o balde, alheio à porta que ainda bate. Deixo atrás de nós as doces figueiras, uma terra de areia e de manhãs dispostas. Bem longe, metálico, um cachorrinho late. Mas o silêncio recai no entorpecimento. Agora o oceano se esconde do sol e os rastros se perdem nas ondas. Pela estrada ocre, casas e vales, vales e casas, animais no pasto, eucaliptos, florestas, videiras, olhos que mal dão para o gasto. Paredes caiadas, ou um girassol, cacos queimados de porcelana azul junto às rugas secas do grande umbu já fazem relembrar do esquecimento, daquilo que não fomos, nunca, eu e tu. Então eu recomeço. Repito a ligação com esperança.

Eu me afasto do Sul por um novo caminho de veias expostas, onde os bois exibem suas enormes panças e os pássaros ensaiam esquisitas danças, uma criança com um vidro fosco espia do outro lado dos trilhos. Através de uma janela sem brilho a mãe ralha com o seu filho, Compro, sem sair de casa, um souvenir na loja de lembranças. Caiu. No caminho, vejo o atônito general Pazuello suando diante de senadores.