Que país ainda é este?
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Que país ainda é este?

Estatísticas da desigualdade e do preconceito

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 Percorro os jornais com olhos de comer estatísticas: “Extrema pobreza aumentou 47% entre 2014 e 2018 e atinge 652 mil pessoas no Rio”. O IBGE é uma fonte inesgotável de más notícias para um país que se quer triunfante e nega o seu racismo estrutural: “Os pretos e pardos correspondem a 55,9% da população, mas são apenas 24,4% dos deputados federais e 28,9% dos deputados estaduais eleitos em 2018”. Aí o cidadão branco exclama: “Que chato. Não se pode falar mais nada”.

      Continuo a ler, com meus olhos de lamber gráfico colorido, os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgados pela mídia: “A população negra tem 2,7 vezes mais chances de ser vítima de assassinato do que os brancos. É o que revela o informativo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”. O governador Wilson Witzel, num delírio, disse que o Rio de Janeiro é uma cidade tão segura quanto Paris, Nova York e Madri. O político comemora 16 mortes por cem mil habitantes/ano. Já foram 35. Acontece que em Nova York são 3,31. Paris é mais econômica ainda: 1,4. Madri envergonha o Rio de Janeiro, o Brasil e Witzel pela asneira dita sem corar: 0,41.

      Dados do IBGE deveriam figurar em outdoors espalhados pelo país:

“Negros são 75% entre os mais pobres; brancos, 70% entre os mais ricos”. Não invento. Apenas reproduzo números ao alcance dos olhos. Cruzo esses dados com outras informações que pipocam diante de mim como balas perdidas: “PEC de Guedes desobriga poder público de construir escolas – Objetivo é ampliar rede privada; outro item retira do Orçamento função de reduzir desigualdade regional”. O que dizer? O que sentir? O que fazer? Ler mais. Mergulhar no lodo das notícias.

Leio que o ministro Paulo Guedes acha tolice afirmar que o modelo chileno, no qual se inspira, erguido pelo ditador Augusto Pinochet, naufragou. Leio o jornal “El País”: “O ‘milagre chileno’ se choca com a realidade. Custo de vida, salários, previdência e os sistemas privados de saúde e educação se sobrepõem à melhora da renda no imaginário coletivo do país sul-americano”. Era uma grande ilusão. Quanto mais leio, mais me choco: “Desigualdade aumentou no Brasil em 2018, aponta IBGE. A renda dos mais pobres caiu mais de 3% e a dos mais ricos aumentou mais de 8%”. O problema só pode ser esse IBGE.

 

Olhos incrédulos

 

      Onde estão as saídas de emergência? O ministro Paulo Guedes apontou uma que me deixou de olhos esbugalhados: “Governo vai taxar seguro-desemprego para bancar empregos de mais jovens”. Uau! Quem nada tem vai contribuir com 7,5% da sua miséria para criar empregos destinados a quem está na penúria. Paulo Guedes reinventa Robin Hood: tira dos pobres para dar aos pobres. O complemento da ideia me faz os olhos saltarem da órbita: “Outro benefício para os empresários é a possibilidade de reduzir a multa rescisória paga ao trabalhador em caso de demissão sem justa causa: 20% em vez dos atuais 40% do valor depositado na conta do trabalhador”. História nacional da infâmia?

      Desnorteado, continuo a ler feito um algoritmo do mal: “Renda do 1% mais rico é 34 vezes maior que da metade mais pobre, diz IBGE”. Leio com olhos de tragar abismos, engolir vertentes, devorar absurdos: “IBGE: 1 milhão desceu linha da pobreza em média por ano no país desde 2015”. Que ponte para o passado! Cada coisa que se fica sabendo com essas leituras: “Segundo o IBGE, entre 2012 a 2014, houve redução de 1,3 ponto percentual na proporção de pessoas com rendimento inferior a US$ 1,90 por dia, quando ela chegou ao menor índice: 4,5%”. Loucura.

      Por que não paro de ler? Fico estarrecido: "No Brasil havia 25,3% da população com rendimentos inferiores a US$ 5,50 (em torno de R$ 22) PPC por dia, ou aproximadamente R$ 420 mensais, o que equivale a cerca de 44% do salário mínimo vigente em 2018”. Ouço que o caminho da roça é a educação. Leio: “Brasil gasta por aluno menos da metade do que países da OCDE – Brasil investe mais em proporção do PIB, mas gasto por aluno do ensino fundamental é de US$ 3,8 mil por ano contra US$ 8,6 mil em países desenvolvidos”. Prossigo nesta saga que me embrulha o estômago e tonteia: “Brasil: Violência, pobreza e criminalização ‘ainda têm cor’, diz relatora da ONU sobre minorias”.

      Leio. Não sei fazer outra coisa: “Em relatório publicado nesta semana, a especialista independente da ONU sobre minorias, Rita Izsák, alertou: cerca de 23 mil jovens negros morrem por ano, muitos dos quais são vítimas de violência pelo Estado. Cenário evidencia ‘dimensão racial da violência’, que movimentos sociais descrevem como ‘genocídio da juventude negra’”. Retorno à fonte nacional sem saber onde me agarrar: “População negra é principal vítima de homicídio no Brasil”. Estou empanturrado de números, saturado de informações. Acho que vou vomitar. Parece só ter um jeito: extinguir esse IBGE daí.