Quem é Juremir?
Todos os dias o CP salta por debaixo da minha porta, cedo da manhã. Começo sempre pelo lado direito da página 4. Antes mesmo do café. É o aperitivo do lanche matinal. Depois é que vou para as amenidades do resto do jornal.
Em muitas oportunidades, já tive um chilique de atrevimento para te escrever. Mas, hoje, o chilicão me tirou todas as resistências. Paciência se este e-mail nem perceber a luz dos teus óculos e for direto para o fogo da lixeira. Me atrevo.
Não sei se te elogio ou se te critico. Há momentos em que tu “gastas” crônicas inteiras (assim, no plural) propagandeando e elogiando os teus próprios livros. Por conta disso, já me senti enojado deles sem ao menos ter visto uma capa sequer. Outras vezes, investes crônicas completas para criticar a tua própria literatura, fazendo-me sentir tentado a comprar ao menos um qualquer deles – tipo assim, para experimentar, tentar, ver o que tem de real nessas ficções –, só por causa das críticas ferinas (ou felinas) que fazes a teus escritos.
Ontem, por exemplo, estive a ponto de comprar todos eles, pela internet (sabe, questão de comodismo, para não perder tempo de ir até uma livraria – ou, talvez, para não sentir a capa e o cheiro do livro novo e desistir da aquisição). Me senti tentado a satisfazer a curiosidade em torno da vida (nas noites) de Palomas, esse mundo tão recorrente em tuas abordagens (talvez valesse algum fim de semana por lá, quem sabe um período de férias), pegar algumas lições da vida “madura” na dobra dos 40 (afinal, também já alcancei os “-enta”), quem sabe uma vista d’olhos no quotidiano alheio para (vi)ver além do meu, ou mesmo alguns olhares (novos, pois não?) sobre a vida do grande (coronel) Getúlio...
Mas, hoje, o meu tesão matinal murchou outra vez, antes do primeiro gole de leite. Encerras o teu texto (p. 4, CP) afirmando que “a literatura brasileira é ainda mais medíocre do que a nossa política”. Pensava que ao menos na ficção o país se salvava.
Tu me assustas deveras, me amedrontas, me cutucas a cada crônica. Confesso que agora me assaltou a dúvida total, fulminante. Essa afirmação é um elogio velado à política brasileira, ou uma crítica explícita à literatura nacional - incluindo a tua? Estou simplesmente embasbacado. Preciso te perguntar diretamente. Que devo fazer: continuar o processo de compra dos teus livros, ou desistir de vez? Ou deveria dar um tempo, à espera das eleições, para ver se paira alguma esperança no horizonte? Muda primeiro a política, ou a literatura se redime antes? Ou não há mais salvação nem na ficção devorando a realidade?
Qual é o teu (real) pensamento neste início de século, na política ficcional e na realidade literária?
Vai um abraço, de qualquer sorte.
(a) Pedro Antônio Lütkemeyer