Querida barriga
A relação de um homem com sua barriga cresce com o tempo. Aí é que está o problema. A barriga sempre vence.
– Como você define traição?
– Como se diz: é algo que colocam na sua cabeça.
– Na nossa.
_ Nunca fui corno.
– E calvície?
– Ora, é algo que sai da nossa cabeça.
– Não sou careca.
– Era o que eu estava dizendo.
– Dizendo o quê?
– Que ainda não saiu tudo da sua cabeça.
– Como anda a sua mulher?
– Não me sai da cabeça. E a sua?
– Não me entra.
– Como define barriga?
– É como o MST.
– Como assim?
– Depois que invade não tem mais volta.
– É só malhar.
– Não adianta. A mídia malha o MST o tempo todo.
– Pode fazer dieta.
– Perda de tempo. Não tem reintegração de posse. Depois da ocupação, o melhor é tentar negociar e tirar proveito.
– Tem situação pior do quando aparece um chato bebedor de cerveja para bater na sua barriguinha aparentemente invisível e dizer festeiro: que cervejinha, hein?
– Eu processo?
– Processa?
– Meu metabolismo ainda é muito bom.
– Mulher detesta barriga.
– Claro. Fazem até lipoaspiração.
– Estava falando de barriga de homem.
– É. Homem de barriga não pega bem.
– Como o homem se relaciona com a barriga?
– É uma relação inversamente proporcional: quanto mais o homem diminui, mais a sua barriga cresce.
– Não, não, é uma questão de classe. Marx é quem tinha razão. Barriga de banqueiro sempre teve crescimento diretamente proporcional aos ganhos de seu dono.
– Não seja esquerdista anacrônico. Barriga nada tem a ver com ideologia. É só uma questão existencial. Tem barriga que cresce geometricamente enquanto o seu homem cresce aritmeticamente. Tem homem que sonha com uma barriga.
– Me Deus! Para quê?
– Para chamar de sua.
– É mesmo?
– Alguns até se afeiçoam. Tem muito homem que deita no sofá e fica acariciando dengosamente a sua barriga.
– Tem razão. Tenho um amigo que chama a sogra de barriga.
– Eu chamo a minha barriga de sogra.
– A minha eu chamo de meu amor.
– Tudo isso?
– Vivo só para ela.