Questões de educação
Caro Juremir, acredito que o problema maior não seja o de se
ser nostálgico ou modernista. Pior que esta ou aquela
tendência, é quando o indivíduo se impõe uma miopia mental
que só vê o mundo por um determinado prisma.
Agora mesmo estamos vivenciando um quadro em que o
governo, em nome de uma propensa educação inclusiva, está
disposto a desativar as escolas ditas especializadas, como o
Ines, (Instituto Nacional para Educação de Surdos) ou o
Instituto Benjamin Constant, (colégio especializado na
educação de cegos desde 1954) do qual sou ex-aluno. É muito
natural, creio, que nós, ex-alunos destas instituições, nos
coloquemos ao lado delas (afinal, é a quem devemos o que
temos de inclusão na sociedade, tanto pela educação recebida
quanto por muitos de nós estarmos hoje inseridos no mercado
de trabalho, o que já aconteceu com tantos outros ao longo
da história) no entanto, não podemos deixar de reconhecer
que o internato têm lá seus senões, seu quê de violência.
Contudo, violência maior, creio, será uma criança cega ser
jogada numa sala de aula e ficar dependente de um
acompanhamento que, na maioria das vezes, não terá,
levando-se em conta o quadro verificado país a fora onde,
tenha ou não deficiência, crianças e mais crianças chegam ao
que anteriormente se chamava de ginásio sem estarem de fato
alfabetizadas. Ainda outro dia, se não me engano no último
dia 11 do corrente, o J N mostrou uma reportagem onde
aparecia uma criança cega muito bem paramentada
tecnologicamente, dizendo-se feliz por estudar numa escola
comum. A reportagem ligava a criança a uma instituição bem
respeitável por sua história que é a Fundação Dorina Nowill,
não mais, no entanto, do que o Benjamin Constant que foi
durante muito tempo a escola de cegos mais respeitada na
América do Sul. Nenhum de nós, cegos como esta criança, pode
deixar de se sentir feliz com a reportagem ou, ao menos, com
o que ela mostrou, acreditando-se que tudo seja verdadeiro o
que queremos crer que seja. O que, porém, temos certeza é de
que esta é a verdade que interessa ao governo que seja
mostrada. Por que não terá sido contada a história de uma
das muitas crianças cegas que existem país a fora que
estudam em escolas comuns e que se sentem excluídas?
Não acredito que o paraíso da educação relativamente aos
cegos esteja em nenhuma das duas vertentes. Só que os
partidários da "educação inclusiva" (toda e qualquer criança
podendo estudar em qualquer escola) independente de ter ou
não uma deficiência, fecham os olhos para o fato de que não
estamos na suíça e sim no Brasil, inclusive alguns de nós
cegos como a SRA. Martinha Claret (ligada ao ministro
Haddad) que, felizmente, muito provavelmente teve uma
família de classe média que lhe pode dar apoio durante seus
estudos. É evidente que quem tem esse privilégio não pode se
sentir culpado pelos que não o têm ou não o tiveram mas,
quando passa a ocupar um cargo no governo como é o caso da
citada senhora, deve buscar uma visão mais abrangente, que
leve em conta a situação de todo e qualquer cego brasileiro.
E a solução é tão simples! Basta que o governo não queira
fazer na educação em geral, inclusive na dos deficientes, a
economia exposta no seu artigo quando se refere aos alunos
repetentes. Basta que dê as famílias dos deficientes o
direito de escolher por este ou aquele modelo de educação.
Que o governo continue pretendendo tornar toda e qualquer
escola preparada para receber toda e qualquer pessoa mas que
não queira nos passar atestados de cegos, que isto somos só
dos olhos, desativando escolas como o Benjamin Constant como
se os cegos brasileiros pudessem prescindir dela, como se a
realidade da educação brasileira fosse compatível com a da
imaginação do governo ou com a que querem nos fazer engolir.
Ora, se a própria França e os #uas revêem hoje suas
políticas no que se refere à educação inclusiva mantendo
suas escolas especializadas, por que o governo brasileiro
acha que pode impor este ou aquele modelo? Os que só vêem
nas escolas especializadas o lado "gueto" como explicariam
os tantos profissionais delas oriundos e que estão hoje
incluídos no mercado de trabalho, isso sem se falar dos
outros tantos que o foram ao longo da história?
A verdade é que a Única ciência na qual o governo se
baseia pra impor esta mudança é a economia.
Atenciosamente,
Leniro Alves
LIGHT S.E.S.A
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