Juremir Machado da Silva

Quintanescas de Feira do Livro

Mario Quintana não dava mole.

Era adepto do bateu levou.

Aderi ao quintanismo.

Encontro um sujeito, o segundo na mesma noite, na Feira do Livro.

Ele me diz com ar exultante, sentindo-se profundamente desafiador:

– Tenho certeza de que você sempre teve essa cara de velho.

Respondo como discípulo de Quintana:

– Tenho certeza de que tu sempre tiveste essa cara de idiota.

*

Encontro uma mulher que se diz minha fã.

Ela dispara:

– Tu não és tão feio quanto dizem.

Respondo quintanescamente:

– A senhora não é tão educada quanto deveria.

*

Um sujeito me escreve:

– A ideologia emburrece as melhores mentes.

Rebato sem deixar a bola cair:

– Imagino o que ela não faz com as piores.

*

Um amigo me corneteia.

– Vi uma entrevista tua. Admiras demais o Gaspari e o Cony.

Respondo com sinceridade:

– Foi só um clichê, uma maneira de não confessar minha falta de admiração por quase todo mundo.

– Não esqueceu de citar alguém?

– Esqueci de citar o melhor colunista de esportes do Rio Grande do Sul, o Hiltor Mombach.

– Mais ninguém?

– O melhor colunista semanal de esportes, o Luis Carlos Reche.

– Ninguém do outro lado?

– Não sei para que time torce cada um.

*

Outro amigo, o terceiro, comenta:

– Teve repercussão a tua entrevista porque criticaste a RBS.

Replico enfarado:

– Só com gente  que confunde a RBS com o sol.

•

Uma senhora me consola:

– Tu ainda vais ser reconhecido.

Corrijo-a sem que ela entenda:

– Mas isso acaba de acontecer.

*

Uma estudante, aflita, me pergunta:

– Tua tia não foi mesmo ao teu autógrafo?

Minha réplica a deixa confusa:

– Não. Mas a tua foi.

•

Um homem sisudo me faz um agradecimento:

– O senhor foi muito bem na defesa da nossa categoria.

– Tentei ser justo.

– Mas vai muito mal quando fala de si próprio.

Minha resposta o ofende:

– O senhor me critica pelo pecado que acaba de cometer.

*

Entro num taxi.

O motorista, falando ao celular, avança sobre uma faixa de segurança e quase atropela uma velhinha.

Um azulzinho tasca-lhe uma multa.

O motora olha para mim e dispara:

– O senhor é testemunha das barbaridades que eles cometem.

– Sem dúvido. Sempre que pego um táxi isso acontece.

•

Encontro um fanático pelo pré-histórico programa Sala de Redação.

Ele comenta:

– Sem o professor o debate esportivo não fica legal.

– Sem o Vinicius Sinott?

– Sem o professor, cara.

– O Enio Kauffman?

– O professor, pô.

– Pensei que estivesses falando de alguém que dá aulas.