Réveillon em Palomas
A festa estava pronta. Todos os grandes personagens de Palomas saíam da bainha de tão contentes. Guma, o oráculo que só prevê o previsível, garantia a virada à meia-noite. Candoca, o ingênuo, esperava um 2010 sem corrupção. Falsíssimo, o cronista gauche-caviar, e Pablo, o colunista especializado no próprio umbigo, exibiam suas bombachas novas. Hilário, o cético que sempre duvida do que os outros pensam, explicava para dois bêbados que com toda a certeza o pré-sal é uma mentira. Arrudinha, o ex-governador do Estado de Palomas, deposto por esconder dinheiro nas folgadas bombachas de “se fresquear” em carreira, mostrava-se disposto a “dar a volta por cima”. Antecipando o carnaval, o Lobisomem desfilava fantasiado de vampiro, enquanto o Saci já comemorava saltitante a conquista invicta da próxima Libertadores da América.
Enfim, o de sempre. Carlos Solito, o escritor ressentido, criticava os prêmios literários e jornalísticos por não ter sido contemplado mesmo que nem tivesse concorrido a alguns deles. Paulo Coelho e Harry Potter, apelidos do João da Granja e do Nico da Hortência, vestiam suas roupas domingueiras. O réveillon de Palomas pertence à Rede Baita Sol assim como o carnaval, o especial de Natal, a entrada de cada estação do ano, as finais dos grandes torneios de dominó e a transmissão de todas as carreiras de cancha reta. O imaginário palomense confunde-se com as imagens da Rede Baita Sol. Em cada título dos seus jornais a Rede Baita Sol faz questão de destacar Palomas. Outro dia, gafanhotos destruíram uma lavoura na Austrália. A Rede Baita Sol mancheteou com orgulho: “Nenhum dos gafanhotos da tragédia australiana era palomense”. Ufa! Que bom.
Palomas esperava sentadinha na frente da tevê. Foi aí que se ouviu um zunzum. Era cochicho para todo lado.
– Não passa – desabafou o diretor da Rede Baita Sol.
– Não passa o quê? – gritaram os palomenses em torno.
– O ano. Assim não passa. Podem esquecer.
– Como não passa? – perguntou Candoca.
– Estou dizendo que não passa. É cem por cento.
– Vamos ficar em 2009? – inquietou-se Candoca.
– Se vamos ficar ou não, pouco se me dá, mas que não passa, posso garantir, não passa. Estamos atolados.
– Por que não passa? – intrometeu-se Guma.
– Por que a prefeitura não quis patrocinar. Passar as imagens da virada do ano custa caro para a Rede Baita Sol. Se não tem patrocínio, a gente não passa.
– Mas aí não tem virada – choramingou Candoca.
– Não tem mesmo.
– Quanto pediram? – interessou-se Arrudinha.
– Apenas R$ 400 mil – respondeu o diretor.
– Por que o prefeito recusou?
– Diz que comprometeria todo o seu orçamento.
– Mas assim Palomas vai perder de ter a virada do ano ao vivo na Rede Baita Sol – assustou-se Guma, o profeta.
– Ao vivo, não. Com apenas dez minutos de atraso. Primeiro temos de passar a virada de Copacabana. Afinal, somos uma afiliada da Rede Planetária. Não vai passar.
–