Juremir Machado da Silva

Realidade Aumentada

O mundo nunca é o mesmo. O Correio do Povo nasceu, em 1895, para ser moderno. Caldas Júnior, o fundador, era louco por tecnologia. Queria ter sempre as melhores máquinas. Contrariando a ideia de que o papel está encolhendo no jornalismo, entramos na era da realidade aumentada. O leitor baixa um aplicativo no celular, mira uma página do nosso jornal (por enquanto aquelas assinaladas com uma marquinha especial) e vê surgir um mundo invisível a olho nu. Digamos que, algo improvável, aconteceu um bate-boca na Câmara dos Deputados entre o incorruptível Eduardo Cunha e os governistas. É possível acrescentar um vídeo do confronto a um texto, digamos a coluna da Taline, já publicado no papel. É tão mágico que chego a me arrepiar.

Se o problema era espaço, espichou. O papel agora é elástico. A realidade brasileira anda aumentando sem parar. Contratos de governos com empreiteiras quase sempre são maiores do que o visível no papel. Faz parte de uma doença sem vacina. Mas estamos cansados de aumentos perversos da realidade. Pois bem, agora temos uma realidade aumentada do bem. O celular é um aparelho impressionante. Chego a ficar acariciando o meu como se fosse um gato. É a minha memória artificial. Antes, qualquer um me enganava com informações falsas que eu não podia conferir. Não caio mais. O Google é meu guardião. Outra noite, perdidos numa estrada, com o GPS em pane, fomos salvos pelo querido celular. Até escalação de time de 1930, que os memoriosos citam incluindo nomes que talvez não tenham existido, não passa mais incólume. Celular e câmara de segurança não dão mole para ninguém.

Essa realidade aumentada do Correio do Povo me fascina. Não me contenho. Saco meu celular e miro para todos os lados feito uma criança brincando de faroeste. Cada linha impressa do jornal é para mim agora um território com informações a descobrir e revelar. Tem um subterrâneo atrás de cada título. Parece uma cidade como Paris. Tem outro mundo embaixo dos pés dos que andam na superfície, vai das catacumbas às estações de metrô com suas exposições, suas máquinas de vender refrigerante, seus cartazes publicitários e os músicos que entoam notas em troca de moedas e até de notas. O que tem por trás de uma notícia? Era uma pergunta capciosa. Sugeria manipulação. Mudou. Por trás de uma notícia, tem uma realidade aumentada. Que loucura!

Meu amigo Federico Casalegno, do prestigioso MIT, gigante americano da pesquisa, onde coisas mirabolantes são inventadas e dão certo, foi o primeiro a me mostrar a realidade aumentada. Chegamos a fazer um projeto em parceria na PUC. Depois, a vida seguiu. Ver essa realidade aumentando as páginas do Correio do Povo dá vertigem. O papel se recicla. Ganha nova dimensão. Renasce. Ninguém precisa ter medo da realidade aumentada. Baixar aplicativos já não assusta. Usa-se até para saber onde tem vacina da gripe disponível. O que seria da vida sem aplicativos? Não imagino. Sou um aplicado utilizador dos aplicativos. Minha realidade não para de aumentar. É quase irreal.