Sou daqueles que precisam tirar o pé do acelerador e parar alguns dias por ano em contato com a natureza.Venho do campo.
Faz mais de 20 anos que frequentamos o nordeste brasileiro anualmente.
Temos nossos lugares prediletos. Carneiros, em Pernambuco, e São Miguel dos Milagres, em Alagoas, onde estamos agora, estão entre eles. É claro que somos atraídos pela beleza das praias, algumas delas ainda bastante tranquilas. Não é preciso fazer longas demonstrações sobre isso. O que sempre me chama a atenção no Brasil são nossos múltiplos Brasis. Entre o Rio Grande do Sul e Alagoas, além da língua, há pontos em comum aprendidos nos bancos escolares. O resto é diferença.
Nossos heróis e ídolos cotidianos não são os mesmos. Grêmio e Internacional aqui são clubes quase tão mágicos e distantes quanto River Plate e Boca Juniors. Há nomes famosos aqui, verdadeiras celebridades, que desconhecemos. Algumas das nossas celebridades são por aqui notáveis desconhecidas. As lonjuras explicam parte dessas diferenças. Há também a força das culturas locais. A televisão não conseguiu eliminar sotaques e uniformizar comportamentos.
Existe sempre alguma coisa que escapa.
Estava conversando com um rapaz, nascido em Porto da Rua, sobre particularidades da vida em Alagoas.
Foi aí que ele se saiu com uma frase realmente interessante:
– Fico só imaginando a vida no Rio Grande do Sul.

Essas diferenças podem se traduzir também em descompassos, preconceitos, transtornos e incompreensões. Uma senhora paulista, hospedada numa pousada ao lado da nossa, estava muito indignada com o serviço recebido:
– Quero café a partir das seis da manhã. Só servem às oito. Eles não conseguem entender o que a gente quer.
Esse “eles” revela um abismo intransponível. Vai demorar para que o entendimento aconteça.
O Brasil que se acha moderno mantem uma relação de fascínio e rejeição com estes “países” nordestinos com jeito próprio. Quer suas belezas, mas não as suas singularidades. A cada ano, estimulado por minha parte idealista irredutível, espero encontrar os preconceitos superados e as diferenças de estilo mantidas como culto à diversidade.
As coisas não andam tão rapidamente, salvo, quem sabe, as piores.
Há notícias de assaltos num dos paraísos mais bonitos do Brasil, a praia do Morro, um lugar deserto, com duas ou três casas, a que se chega atravessando um rio de barquinho, o que já dá aura ao passeio. A perfeição entre o rio e o mar. Pode-se passar ali algumas horas na solidão ao sol ou à sombra do imenso coqueiral. Depois de alguns acenos, o barqueiro atravessa o rio para recuperar os visitantes e depositá-los no ponto de partida.
Esse parecia ser o único relato possível. Agora, contudo, já se fala em assalto, arrastão, até em medo.
Espero que essa versão seja apenas a narrativa sensacionalista de alguém, com algum espírito jornalístico, do jornalismo do passado, claro, cansado de repetições paradisíacas e um tanto dado a fabulações, exageros ou notícias esquentadas para ganhar a atenção do ouvinte. O único susto que tomei até agora foi por uma tentativa de invasão do nosso chalé por seis suspeitíssimos macaquinhos voadores. Estão fotografados. Não fazem pose, mas não se escondem.
Difícil é fotografar beija-flor. Beijam muito rápido e nunca param quietos.
Há flores demais para acariciar.
