Olho a chuva pela janela e penso.
Anteontem, eu era um reacionário insuportável.
Ontem, eu já era de esquerda.
Hoje, já me acusam de querer a volta do regime militar.
Se eu não fosse a falta que me faz a picanha do Barranco, eu poderia pedir asilo na França, onde sou cartesianamente sempre o mesmo, um estrangeiro com algumas novidades sobre a periferia do mundo, a periferia exótica do capitalismo.
Um lugar que só existe no meu imaginário.
Um quadro cubista numa parede do novo museu Picasso.
Fiel aos ensinamento de Edgar Morin, nunca estou onde me procuram.
Eu não de ninguém.