Juremir Machado da Silva

Reflexões sobre a consistência do peru

Todo Natal é a mesma coisa: será que vamos receber peru? Aí o peru chega. A questão muda: como fazer o peru para que não fique seco? Tudo se tenta. Muitas são as receitas. Um casal passa a ter um problema extra: como dar cabo do peru? Não que ele chegue vivo. Vem embalado. Mas é interminável. Cinco dias depois ainda tem peru. É peru na ceia, no almoço, na janta, no lanche e, se duvidar, na sobremesa. O peru se espicha, alonga-se, prolonga-se, dá cria. É por isso que eu sou a favor de fazer festa no Natal. Assim não sobra peru. Atenção: gosto de peru. Faz parte da atmosfera. Não posso imaginar o Natal sem peru, panetone, espumante e papai noel.

De tanto comer o peru deste ano, aprendi algo: é preciso ter o espírito aberto. O peru é uma dádiva. Morre na véspera. Marca uma época. Precisamos fazer tudo para degustá-lo com satisfação. No quinto dia comendo o peru deste ano, já sem ânimo para esquentar o último pedaço, veio a revelação: o peru fica melhor e incrivelmente mais macio se for comido gelado. Ainda não sei se essa é uma situação acidental ou se pode ser generalizada. A generalização é o princípio da ciência. Uma hipótese só alcança a condição de verdade científica se passar pelo teste da generalização. É preciso que, nas mesmas condições, o fenômeno se repita. Daí a minha a implicância com quem fala “ah, não generaliza”. Como não?

O problema é a generalização improcedente. É com esse espírito científico, em nome de uma boa generalização, que convoco meus 39 leitores a fazer uma experiência capaz de nos levar a um Nobel: teste o peru gelado. Se for possível, que cada um adquira um peru exclusivamente para a nossa experiência científica. Pode ser que seja até um caso já resolvido. Confesso que não fiz o inventário da bibliografia já existente sobre peru de Natal. Vai ver que já é sabido que peru só fica macio se for comido frio. De qualquer maneira, entendo que podemos trabalhar de maneira interativa. Se essa já é uma verdade culinária e científica, temos de vulgarizá-la.

A secura do peru leva ao desperdício. Quanta gente abandona o peru pela metade? Quanta gente nunca chega ao fim do peru? Quanta gente desiste e passa o resto da vida sem tocar no peru? A consistência do peru é determinante. Somos adultos, não temos preconceitos, precisamos falar claramente. Tem gente que só vê peru no Natal. Quem sabe, com um novo entendimento sobre a maneira de comer peru, não se poderia levar a um contato mais corriqueiro com peru ao longo do ano? Esquentar o peru pode ser uma perda de tempo. Precisamos tirar o peru do armário com mais frequência. Quer dizer, da geladeira. Peru para todos.

Em Palomas, tentei criar peru. Era um bichinho frágil. Morria com facilidade. Guardo, mesmo assim, do peru uma boa imagem. Tanto que já exclamei: “É do peru!” Tenho afeto por peru. Quero comer peru mais vezes. Peço ajuda. Estou atrasado? Sou muito lento? Peru bom e macio é peru frio? Este Natal pode ter mudado para sempre a minha relação com o peru. Finalmente o peru pode ter me aberto os olhos.

Como ocorre muito em ciência, por acaso.

Peru é uma variação de peur (medo em francês).

Faz sentido.