Filhotas da ditadura
André Luiz Simas Pereira
Como todo André Luiz, tenho este prenome duplo e grafado com Z por conta de algum espírita kardecista que influenciou a elaboração da minha certidão de nascimento. Por consequência, na infância e no início da adolescência, movido pela influência paterna, recebi ensinamentos religiosos deste jaez, o que por certo me marcou para toda a vida. Por exemplo: Flávio Tavares faz questão de me chamar com o prenome completo.
Em outro viés determinista, tenho certas características desenvolvidas com o acompanhamento de dezenas, quiça centenas, de sessões em centro espíritas dos mais diversos tipos e tendências de manifestações mediúcas, sempre, claro, à luz de Allan Kardec.
Ontem, à tarde no plenarinho da Assembleia, assisti uma reencarnação inesperada e impressionante.
Recepcionados pelo presidente do Parlamento, uma dúzia vereadores comandados pelo choroso chefe do Legislativo municipal pedia socorro aos deputados para agir contra a ocupação da colenda pelos ativistas do Bloco de Lutas pelo Transporte Público que reivindicam a abertura das contas das empresas de ônibus e pedem passe livre para estudantes e desempregados.
O cenário era, digamos, poético.
O anfitrião envergava uma luzidia gravata rosa-lilás em sintonia com um evento do Inama em andamento no Dante Barone. A seu lado, lado a lado na mesa de trabalhos, postavam-se 11 vereadores, além do presidente da colenda, da base de sustentação do prefeito de Porto Alegre.
De um edil veterano que foi prefeito da capital com o olhar perdido e distante até um vereador balofo que suava ódio, passando por senhoras jovem e idosa, além de uma representante das igrejas evangélicas, um outro conhecido apenas como torcedor de futebol e um ex-boleiro gremista, ali, sustentando que eram vítimas de um temível golpe partidário contra a democracia.
Um jornalista antigo, detentor de um blog, entrou na dança dos questionamentos da mídia aos vereadores, na linha do jornalismo- lenha- na- fogueira-o-resto-que-se-exploda, perguntando se poderia ser pedido o impeachment do governador (!!!???)
(Sentindo a armadilha dos vereadores, que tentavam jogar a incapacidade da Câmara do município para a esfera do estado, o presidente da Assembleia retira-se silenciosamente do ambiente de ar tenso).
Os veredadores ficam à vontade para sentar o pau nos manifestantes do Bloco de Lutas, nos outros vereadores que apoiam o movimento, na Brigada Militar que não escorraçou ainda a gurizada do plenário ocupado, no governo estadual que não recorreu à força armada, etc.
O palavreado sobe de tom. Todos capricham na mesma cantilena da vitimização. Não há contraponto.
- Os funcionários está com medo, o vereador Walter Nagelstein está com medo de violência ! Eu fui agredido, a imprensa está proibida de trabalhar, é um golpe e partidário,sim... - repete o presidente da Câmara, dr. Thiago.
Dr. Thiago revela mágoa porque os manifestantes cantaram em coro que ele não os representava.
"Não nos representam! Não nos representam!"
A Câmara, acredita o dr., representa toda a sociedade. Mas o grupo que decide pela Câmara reuniu-se em uma churrascaria sem convidar os vereadores que tem opinião divergente para decidir chamar a polícia.
E de repente, de olhar arregalhado e feições transformando o rosto no que me parece em uma caricatura da raiva, eis que uma vereadora, brada apoplética:
- Estamos em cárcere privado! Terroristas! Bando de delinquentes!
Minha formação espírita me apresentou a vereadora Monica Leal encarnando o ideário do próprio pai e vociferando com o mesmo garbo grosseiro do coronel Pedro Américo Leal, arenista de plantão dos tempos truculentos da ditadura militar que prendeu, torturou e matou quem pensava diferente do regime arbítrrio da elite fardada com coturnos e punhos de renda.
Era assim mesmo, com ódio e olhos esbugalhados, que gritavam, nos anos 60, 70 e parte dos 80, os pais da filhota, acusando a todos adversário políticos de delinquentes e terroristas.