Foi uma semana emocionante.
Faz bem um pouco de adrenalina.
Fui da toga ao samba no boteco Dona Neusa.
Na terça-feira, Taline Oppitz me disse: “Podemos ter o Basegio na sexta”. Vínhamos querendo entrevistar no Esfera Pública, nosso programa na Rádio Guaíba, o deputado estadual pedetista Diógenes Basegio, acusado de extorquir parte do salários de funcionários e de ter uma empregada fantasma. Taline disse mais: “Ele vai renunciar ao vivo no programa”.
Na quinta à noite, a confirmação: o advogado Ricardo Giuliani sacramentou a ida de Basegio ao Esfera, como chamamos carinhosamente o nosso encontro diário para falar de política e de muitos assuntos. Era esperar. Mas esperar com a convicção de que daria certo.
Preparamos tudo. A TV Record-RS resolveu mostrar a entrevista com Basegio ao vivo do nosso estúdio de rádio. O Esfera Pública tem histórico de “furos”, termo que no jornalismo significa notícia em primeira mão. Um deles, de repercussão nacional, foi a conversa por telefone entre Olívio Dutra e o deputado José Genoíno durante o mensalão petista. Olívio enquadrou Genoíno e o intimou a renunciar. Outro “furo” foi a data de exumação do corpo do ex-presidente João Goulart. Demos a notícia antes mesmo do fim da reunião em Brasília na qual a data foi decidida. Até altas autoridades envolvidas surpreenderam-se. Dois rombos. Desta vez, começamos o programa só com o advogado Ricardo Giuliani. Ficamos de olho na porta envidraçada. Basegio chegou dez minutos depois. Após responder a duas ou três perguntas, passou a ler a sua carta de renúncia. Chorou durante a leitura.
Ficamos arrepiados. Estava diante de nós um homem abalado.
Basegio negou todas as acusações. Assegurou ter sido vítima de uma reportagem editada para descontextualizar imagens. Disse: “Fui deputado”. Explicou as razões da sua decisão. Voltará ao exercício pleno da medicina. Eu nunca tinha visto uma renúncia ao vivo em rádio e televisão. Não esquecerei. Como não esquecerei a honra que tive, nesta mesma semana, de proferir o discurso de saudação a Gilles Lipovetsky, feito Doutor Honoris Causa da PUCRS por iniciativa da Faculdade de Comunicação e do seu Programa de Pós-Graduação. Eu já havia discursado na mesma situação para Edgar Morin e Michel Maffesoli. Voltei a me a arrepiar. Outra emoção da semana é a edição de hoje do Caderno de Sábado do nosso Correio do Povo. Uma análise dos atentados de Paris feita por cinco intelectuais franceses: Edgar Morin, Michel Maffesoli, Dominique Wolton, Gilles Lipovetsky e Emmanuel Jaffelin. Atrevo-me a dizer que é uma edição histórica. Ouso dizer que é a melhor edição do Caderno de Sábado. Mesmo em relação ao de antigamente. Não tenho complexos. Acho que o presente pode superar o passado.
A concorrência acusou o golpe ontem.
Mandou uma equipe de rádio e televisão ficar plantada, com uma câmara instalada e apontada, na porta do prédio do Correio do Povo e Rádio Guaíba esperando a saída de Basegio. O ex-deputado preferiu sair discretamente pela garagem. Quando passei, avisei os colegas para não perderem tempo. Voltei para casa com a deliciosa sensação de muitos deveres cumpridos.
– Arrombamos – foi minha última frase ao me despedir da Taline.
Não sinto o menor constrangimento em nos aplaudir. É merecido.