Juremir Machado da Silva

Retoques na teoria geral das malas ou troll

Banda precisou adiar shows por causa de um intervenção cirúrgica do vocalista  Brian Johnson
Banda precisou adiar shows por causa de um intervenção cirúrgica do vocalista Brian Johnson Foto : Timothy A. Clary/ AFP
Ao contrário do que diz o senso comum, malas sempre aparecem.

Nunca se perdem definitivamente.

Jamais vão parar do outro lado do mundo para nosso alívio e libertação. Mala que é mala nunca se extravia. Mala precede a existência. Já se nasce mala.

Simone de Beauvoir libertou a mulher da anatomia ao afirmar que ser mulher é uma construção cultural. Com mala não tem conversa.

Malice é uma condição intemporal, universal e acima de classes sociais ou de bagagem cultural.

Mala e chato são categorias distintas.

Todo mala é chato, mas nem todo chato é mala. O chato, caso tenha predisposição genética, poderá vir a ser mala por promoção ou tempo de serviço. Em geral, isso acontece.
Mala é aquele sujeito que, quando alguém lhe pergunta como vai, ele não só responde como apresenta os exames médicos. Mala é o cara que, encontrado num coquetel, pega o seu número de telefone, de carona, diz que vai ligar e liga mesmo.

Mas o pior mala não é o que dá resposta ao “como vai?”, mas aquele que deseja realmente saber como a gente vai. E sempre encontra em nós um mal que ninguém tinha percebido.

Tem mala de vários gêneros. Entre os comuns, há o que sempre traz um penetra para um jantar com lugares marcados à mesa. Esse é fácil de aturar. Insuportável mesmo é o mala que sempre vem sozinho, o que nunca traz um carona para aliviar a gente da sua presença volumosa.
Os malas dividem-se em grupos simples.

Tem mala de aeroporto. É o tipo que adora despedida e insiste em acompanhá-lo ao aeroporto mesmo quando você vai embarcar às seis da manhã para Joaçaba e voltar no dia seguinte.

Nem todo o acompanhante a aeroporto é mala.

Uma vez, quase despachei o acompanhante. Foi recusado por excesso.

Mala de aeroporto bate facilmente mala de velório. Este, ao menos, ajuda a carregar o caixão. O outro sempre dá um jeito de ficar longe da sua congênere, que, ao menos, tem rodinhas e alça.

O problema do mala de velório é que não quer mais largar a alça do caixão, enquanto o mala de aeroporto não tem alça nem caixão. O mala de aeroporto tem os pés fincados na terra. O mala de velório anda sempre aéreo. Ambos estão convencidos da sua utilidade social.
Duro mesmo é mala teórico. É o cara que liga num feriado para pedir uma informação urgente sobre Lopo da Costa ou Manuel Jorge Sepúlveda. Na falta de resposta consistente, aproveita para elogiar Arnaldo Jabor e apresentar duas rápidas hipóteses sobre a agonia do capitalismo e a decadência do império americano por analogia com a decadência do império romano.

Conheço um mala teórico que me ligou para saber se poderia me ligar no dia seguinte das 13 às 18 horas. Pensei que era “entre” 13 e 18 horas. Mas era literalmente das 13 às 18 horas. Nessa rápida conversa, em que deixei duas vezes o telefone sobre a cama e fui cuidar do que Comte chamava de “fraquezas humanas”, o mala refutou todas as minhas observações sobre tudo e o seu contrário antes que eu pudesse emitir um único som. Mala nunca perde o fio da meada nem a etiqueta.
Sempre cabe algo mais em mala. Conhecem mala psicanalítico? É o baú que pergunta como você vai e, ouvindo resposta positiva e complexa do tipo “bem”, pondera: “É, mas não vai durar...”

Para o mala psicanalítico toda paixão é doença, toda ruptura é falta de maturidade, toda continuidade esconde uma crise latente e tudo se resolve com remédio e tomada de consciência da situação. Mesmo do que não existe. Contestar o diagnóstico de mala psicanalítico significa resistir à lucidez que nos revela a nós mesmos. Para o mala psicanalítico o ser humano já nasce doente, mas o pior é não querer admitir isso.
Terrível mesmo é o mala simpático. Está sempre querendo ajudar, oferecendo o seu apoio, entendendo tudo, prestando serviço, colocando-se à disposição. Pior ainda: é a figura que quando alguém diz, “posso ajudar?”, ele aceita. Tem malas com mania de tocar e de beijar. É infernal.

São capazes de escalar mesas, balcões e barricadas de móveis para desferir dois ou três beijos em pessoas indefesas e apavoradas. Mala francesa dá quatro beijos! Mala da era mecânica já incomodava bastante. Imaginem mala quântica, descontínua, caótica, alheia às relações convencionais de causa e efeito!

O inferno são os malas. Pior mala é aquela que não quer ser carregada. Prefere carregar a gente. O chato dos malas é o efeito bumerangue: por mais que sejam despachados para longe, sempre voltam, mais pesados do que nunca. Mala nunca esquece nenhuma data importante. Só o presente. Mala não perde viagem. Ao final de um texto destes, chama o autor de chato e de mala. Mas lê de novo só para sentir mais raiva. Depois dos 40, cada homem tem 50 por cento de chances de tornar-se mala, baú ou bagageiro.

A última evolução do mala é o mala virtual, uma atualização tecnológica da mala tradicional.

Mal virtual tem mania de perseguição.

Acredita em teoria conspiratória.

Eu sou mala.

Mas procuro carregar só a minha roupa suja.

Mala na linguagem virtual é troll.