Ao contrário do que diz o senso comum, malas sempre aparecem.
Nunca se perdem definitivamente.
Jamais vão parar do outro lado do mundo para nosso alívio e libertação. Mala que é mala nunca se extravia. Mala precede a existência. Já se nasce mala.
Simone de Beauvoir libertou a mulher da anatomia ao afirmar que ser mulher é uma construção cultural. Com mala não tem conversa.
Malice é uma condição intemporal, universal e acima de classes sociais ou de bagagem cultural.
Mala e chato são categorias distintas.
Todo mala é chato, mas nem todo chato é mala. O chato, caso tenha predisposição genética, poderá vir a ser mala por promoção ou tempo de serviço. Em geral, isso acontece.
Mala é aquele sujeito que, quando alguém lhe pergunta como vai, ele não só responde como apresenta os exames médicos. Mala é o cara que, encontrado num coquetel, pega o seu número de telefone, de carona, diz que vai ligar e liga mesmo.
Mas o pior mala não é o que dá resposta ao “como vai?”, mas aquele que deseja realmente saber como a gente vai. E sempre encontra em nós um mal que ninguém tinha percebido.
Tem mala de vários gêneros. Entre os comuns, há o que sempre traz um penetra para um jantar com lugares marcados à mesa. Esse é fácil de aturar. Insuportável mesmo é o mala que sempre vem sozinho, o que nunca traz um carona para aliviar a gente da sua presença volumosa.
Os malas dividem-se em grupos simples.
Tem mala de aeroporto. É o tipo que adora despedida e insiste em acompanhá-lo ao aeroporto mesmo quando você vai embarcar às seis da manhã para Joaçaba e voltar no dia seguinte.
Nem todo o acompanhante a aeroporto é mala.
Uma vez, quase despachei o acompanhante. Foi recusado por excesso.
Mala de aeroporto bate facilmente mala de velório. Este, ao menos, ajuda a carregar o caixão. O outro sempre dá um jeito de ficar longe da sua congênere, que, ao menos, tem rodinhas e alça.
O problema do mala de velório é que não quer mais largar a alça do caixão, enquanto o mala de aeroporto não tem alça nem caixão. O mala de aeroporto tem os pés fincados na terra. O mala de velório anda sempre aéreo. Ambos estão convencidos da sua utilidade social.
Duro mesmo é mala teórico. É o cara que liga num feriado para pedir uma informação urgente sobre Lopo da Costa ou Manuel Jorge Sepúlveda. Na falta de resposta consistente, aproveita para elogiar Arnaldo Jabor e apresentar duas rápidas hipóteses sobre a agonia do capitalismo e a decadência do império americano por analogia com a decadência do império romano.
Conheço um mala teórico que me ligou para saber se poderia me ligar no dia seguinte das 13 às 18 horas. Pensei que era “entre” 13 e 18 horas. Mas era literalmente das 13 às 18 horas. Nessa rápida conversa, em que deixei duas vezes o telefone sobre a cama e fui cuidar do que Comte chamava de “fraquezas humanas”, o mala refutou todas as minhas observações sobre tudo e o seu contrário antes que eu pudesse emitir um único som. Mala nunca perde o fio da meada nem a etiqueta.
Sempre cabe algo mais em mala. Conhecem mala psicanalítico? É o baú que pergunta como você vai e, ouvindo resposta positiva e complexa do tipo “bem”, pondera: “É, mas não vai durar...”
Para o mala psicanalítico toda paixão é doença, toda ruptura é falta de maturidade, toda continuidade esconde uma crise latente e tudo se resolve com remédio e tomada de consciência da situação. Mesmo do que não existe. Contestar o diagnóstico de mala psicanalítico significa resistir à lucidez que nos revela a nós mesmos. Para o mala psicanalítico o ser humano já nasce doente, mas o pior é não querer admitir isso.
Terrível mesmo é o mala simpático. Está sempre querendo ajudar, oferecendo o seu apoio, entendendo tudo, prestando serviço, colocando-se à disposição. Pior ainda: é a figura que quando alguém diz, “posso ajudar?”, ele aceita. Tem malas com mania de tocar e de beijar. É infernal.
São capazes de escalar mesas, balcões e barricadas de móveis para desferir dois ou três beijos em pessoas indefesas e apavoradas. Mala francesa dá quatro beijos! Mala da era mecânica já incomodava bastante. Imaginem mala quântica, descontínua, caótica, alheia às relações convencionais de causa e efeito!
O inferno são os malas. Pior mala é aquela que não quer ser carregada. Prefere carregar a gente. O chato dos malas é o efeito bumerangue: por mais que sejam despachados para longe, sempre voltam, mais pesados do que nunca. Mala nunca esquece nenhuma data importante. Só o presente. Mala não perde viagem. Ao final de um texto destes, chama o autor de chato e de mala. Mas lê de novo só para sentir mais raiva. Depois dos 40, cada homem tem 50 por cento de chances de tornar-se mala, baú ou bagageiro.
A última evolução do mala é o mala virtual, uma atualização tecnológica da mala tradicional.
Mal virtual tem mania de perseguição.
Acredita em teoria conspiratória.
Eu sou mala.
Mas procuro carregar só a minha roupa suja.
Mala na linguagem virtual é troll.