Fiquei sabendo que Palomas aderiu ao reversalismo. Para quem possa não saber, o reversalismo foi criado pelo escritor inglês Ian McEwan no livro “A barata”. Tudo se inverte, a começar pelo fluxo do dinheiro. A pessoa ganha pelos produtos comprados numa loja. Quem comete uma infração recebe dinheiro do guarda de trânsito. Uma barata vira homem e assume como primeiro-ministro. Era uma sátira. Palomenses genuínos, porém, têm o reversalismo no DNA. Tomam o sério por engraçado e a sátira por plano de governo. O parlamento de Palomas aprovou o reversalismo por 0 a 513. Quanto menos votos, maior a vitória.
A luta consistiu em perder votos. Especula-se que alguns tenham dado cargos para não votar em favor das suas convicções, que sempre são monetizadas.
O reversalismo levado ao extremo é muito engenhoso, embora de fácil aplicação: a floresta provoca o fogo; a lavoura cria as suas pragas; óculos produzem o nariz conforme o tamanho da armação; quanto maior o valor de uma cédula, menor é o seu poder de venda (não se fala em poder de compra); o corrupto delata-se e obtém uma pena inversamente proporcional à gravidade dos seus crimes; a vítima recebe punição; a mídia só cobre a si mesma; gafanhotos entredevoram-se até converter as nuvens que formam em plantas verdejantes; livros leem os leitores e rodam em testes de interpretação de textos; notícias falsas encontram mais interessados do que as verdadeiras; impostos tiram mais dos pobres para compensar os ricos por seus investimentos; vive melhor quem se esforça para morrer mais cedo; militares defendem golpes civis; elites pregam o populismo; o povo exige continuar como está.
Sempre achei que Palomas adotaria o reversalismo. Era uma tentação que pairava sobre a polis como o parlamentarismo em outros lugares. Por exemplo, no Brasil. O reversalismo em Palomas tem duas facções antagônicas e complementares: a monarquista e a continuísta. A monarquista defende a República. A continuísta propõe mudar tudo. A política externa reversalista palomense quer o fechamento das fronteiras na saída e a abertura na entrada. O Ministério do Interior cuida do que acontece lá fora. Palomas triunfa. Todos falam dela. A única preocupação é com o pós-reversalismo, que defenderia um retorno ao pré-reversalismo como modo de evoluir, dado que o reversalismo puro privilegia a involução como forma de não alcançar as metas. No reversalismo, fascismo é democracia; tristeza, alegria; preconceito, liberdade de expressão. Na bandeira reversalista de Palomas consta: avante, para trás. Eia!
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À bala
Em meu fim está o começo,
Como num poema de Eliot
Com o princípio invertido.
Não vejo isso como um tropeço:
Uma parte de mim já se foi,
Outra parte nunca chegará,
Ficou só o mais divertido.
Agora eu sou como um coiote,
Passos tensos, olhos atentos,
Nas praias atrás de um saiote.
Corpo preso, braços soltos,
Em bares brincando de Capote.
Não virei poeta por desespero,
Foi por acaso, no Rio de Janeiro,
Antes ou depois de algo importante,
Numa tarde qualquer de fevereiro.
Chovia doce e melancolicamente,
Como numa poesia romântica,
Em plena Avenida Atlântica.
Também, juro, não houve destempero,
De repente, eu me vi por inteiro,
Imenso, franzino, altivo, preso.
Mais do que isso, eu vi o sol,
Mais-que-perfeito e sublime,
Com a beleza fria de um crime,
Nas curvas de um corpo maneiro.
Ali eu soube qual seria o meu fim,
Uma bela perdida me fez reincidir.