Juremir Machado da Silva

Rio de Janeiro, 45 graus

Rio de Janeiro, 45 graus


Estamos no Rio de Janeiro, em Ipanema, em férias.
Meu olhar antropológico não me abandona.
Como é esquisito o ambiente de uma praia.
Mais ainda, de uma capital litorânea.
Mais, como o Rio de Janeiro é esquisito.
Deliciosamente esquisito.
O motorista de táxi sempre dá um jeito simpático de não ter de devolver troco de três ou quatro reais. A manobra é tão legal e azeitada que a gente até agradece. Faz bem. Sentimo-nos involuntariamente menos mesquinhos.
Nas areias, aquela infinidade de bundinhas e bundonas femininas viradas para cima faz pensar num desenho animado ou numa ninhada de ovos de avestruz prontos a eclodir. Embora imóveis, aqueles traseiros se mexem. E como! Tem de todos os tamanhos, formatos e cores. Alguns tiram o fôlego. Tiram até mais do que isso.
Tiram tudo.
Os homens costumam ficar de barriga para cima, o que nem sempre é um espetáculo agradável de se ver, segurando latinha de cerveja ou garrafas e torcendo o pescoço com maior ou menor velocidade conforme o tamanho da barriga.
Os mais barrigudos olham mais vezes para os lados e soltam exclamações mais claras a respeito dos corpos femininos que passam. Devem pensar que nada mais têm a perder. Ou o crescimento da barriga diminui a inibição.
Li em algum lugar, não lembro onde, que um discípulo extraviado de Freud teria concebido uma vinculação inversamente proporcional entre barriga e superego.
Sei que é assim no mundo inteiro. Mas nunca deixo de me espantar. Com uma sensação térmica de 45 graus, ou mais, um domingo no Rio de Janeiro é digno de análise. Os homens puxam seus membros sem a menor cerimônia e mijam em qualquer lugar, sob o olhar complacente de senhores, senhoras, crianças, cães, policiais e meninas gostosas.
Alguns cachorros bem adestrados até se constrangem ou reclamam ao ver seus postes prediletos ocupados.
Em dia de Fla-Flu, a excitação é geral. Um pouco mais e até pareceria um Gre-Nal. Mas levar essa comparação mais longe já seria dar muita importância a um simples jogo de futebol entre dois clubes cariocas.
Certas coisas me intrigam no Rio de Janeiro: por que o filé à Osvaldo Aranha (com alho) é uma instituição carioca e tem pouca expressão no Rio Grande do Sul, terra do grande político cujo aniversário de morte (50 anos) aconteceu agora no final de janeiro? Resquício certamente de uma época em que atávamos nossos cavalos em obeliscos do Rio, morávamos no Catete ou no Guanabara e fazíamos as cariocas suspirar com nossa capacidade de tomar o poder.
Carioca adora dizer que gaúcho é bairrista. Adora também imitar nosso sotaque. Tem uma lei do sotaque: quanto mais sotaque tem um sujeito, ou um povo, mais tem a tendência a imitar e caricaturar o sotaque dos outros.
No fundo, carioca é mais bairrista do que baiano e gaúcho juntos. Ninguém é mais bairrista do que carioca. Só que o carioca não tem como notar isso. Afinal, para ele, o Rio de Janeiro é naturalmente o centro do mundo. São Paulo também expressa o seu bairrismo orgulhando-se de ser cosmopolita. No Rio, contudo, o bairrismo é mais acentuado. Faz sentido: a cidade é maravilhosa, abençoada por Deus, visitada até por paulistas em férias, e, como diz um amigo meu, coincidentemente carioca e com um lindo sotaque (ele diz “mermão” e chia como uma cambona em galpão), só o carioca realmente tem senso de humor. É uma piada adorável. Não é mesmo?
Eu adoro o Rio de Janeiro. Sempre tiro uns dez dias de férias neste parque de nádegas ao ar livre.
Como não gostar de um lugar onde se pode encontrar todo mundo quase pelado, até o chefe ou a chefe, antes de ir trabalhar e, ainda assim, manter-se o senso de hierarquia? Como não gostar de um lugar onde se pode jogar futebol profissional com quase 40 anos de idade e ainda sair para a balada? Sem dúvida, essa nudez compartilhada e essa flexibilidade de comportamento impõem outro tipo de civilização. De resto, a civilização, com suas normas e interdições, só começa a, pelo menos, quatro quarteirões da praia, onde para usar gravata também se torna necessário algum outro tipo de roupa como acompanhamento. Digamos, uma calça, uma camisa e, quem sabe, sapatos. Fala-se muito em influência da Rede Globo na cultura popular. É preciso relativizar essa ideia tipicamente esquerdista e adepta da teoria da conspiração. O povão nem consegue dizer Globo. Vai do seu jeito mesmo ao ponto.
– Biscoito “grobo”, biscoito “grobo” aí...
Alguns conseguem formulações originais:
– Tava pensando ni tu.
É um povo original, criativo e empolgante. Existe um biótipo carioca. Assim como existem biótipos gaúchos, paulistas, baianos, etc. O carioca fisicamente é sempre mais ou menos como o Romário. Mesmo quando é alto. Tem aquele jeito maravilhoso de pato com o peito estufado, o que lhes dá, ao mesmo tempo, um ar “nonchalant” e suavemente arrogante. Continuarei tentando entender o modo de vida dessa cultura que chama a atenção do mundo.