Juremir Machado da Silva

Ritmo baiano

Ritmo baiano

Baiano não concebe a vida sem fundo musical.
Em alguns lugares, a vida é que fica no fundo.
Baiano é musical. Mesmo quando jura detestar música. Isso existe. Encontrei um exemplar. Queria mandar empalhar, mas fui aconselhado a desistir da ideia. Aleguei que era pelo bem da ciência. Fui ignorado.
Todos os ritmos são permitidos e misturados. Ficam disputando o espaço aéreo e o gosto dos visitantes.
Baiano é barroco.
Eu disse barroco, não barraco.
Tem lógica nisso. Até os anos 1950, mais ou menos, música popular brasileira era predominantemente dor-de-cotovelo. Uma tristeza danada. Aqueles vozeirões cantando cornos, ressentimentos, perdas e mágoas. Só havia canção se houvesse cornice. Até samba era triste. Uma dor só. O morro sangrava, chorava, padecia, orgulhava-se disso. Cornice é o que mais existe ainda, especialmente nas novelas do tal do Maneco, mas dá para cantar outras coisas. Baiano canta e dança. Só pensa coreograficamente.
A Bossa Nova, a Jovem Guarda e, depois, os ritmos baianos acabaram com essa hegemonia da tristeza. A Bossa Nova cantou o sol, barquinho, o Rio de Janeiro, as gostosas a caminho do mar e um monte de coisas alegres.
A Jovem Guarda cantou as curvas da estrada de Santos, as garotas papo firme e alguma tristezinha.
A literatura brasileira ainda é pré-Bossa Nova.
Só fala de coisa triste. Literatura alegre não tem.
Ou não cola, nem pode, faz mal, está proibido.
Qualquer livro de jovem bacana de classe média ou alta lembra um bolero ou coisa pior. Um sofrimento só. Deve ser por causa da importância do conflito na história. Na vida, porém, há conflitos e superações. Final feliz, porém, está fora de moda. Deve ser triste do começo ao fim sob pena de ganhar o rótulo de brega.
Jovem escritor bacana sempre parece filhote de Salinger. Aquela coisa da dura iniciação dos perdidos na noite. Faz chorar até o sujeito largar o livro e gritar:
– Basta! Chega! Porra!
Escritor bacana tem complexo de corno. Só fala de sofrimento. Escritor precisa fazer estágio na Bahia.
Jorge Amado, em “O País do Carnaval” (1930), já debochava desta nação do futuro. Esse futuro estava sempre reservado, obviamente, para o futuro. Um eterno presente fadado a se tornar, um dia, apenas um passado.
Tem gente que acha que o futuro chegou com a prisão do safado do Arruda. O homem vai passar o carnaval fantasiado de zebra. Simbolicamente. Uma estreia.
Meu amigo Luis Gomes está chocado: como é que pode? Tem indulto de Natal, indulto de Páscoa, indulto disso e daquilo. Não tem indulto de carnaval? Afinal, o homem pagou a conta do desfile da Beija-Flor e vai ficar longe da festa! Que injustiça. Arruda só estava ensaiando aquela velha marchinha: “Ei, você aí, me dá um dinheiro aí...” Na verdade, estava oferecendo um dinheiro aí. Nem era em meia ou cueca. Era numa discreta sacola de papel.
Arruda é um monumento tropical em homenagem ao homo brasilienses. Um monumento em papel celofane. A história dele dará um excelente livro sobre as tristezas da corrupção. Ao final, ele vai chorar e pedir desculpas.