Rolo no rolo ou eu, hein, Rose?
– Para com isso, vai, já deu rolo uma vez.
– Sei. Isso nunca mais vai acontecer.
– Sério?
– Bem, só uma última vez.
– Olha, isso vai dar rolo!
Deu. O Brasil não é um país sério. Atribuíram essa frase ao francês Charles de Gaulle, que não a disse. Prova de que não somos sérios. Nelson Rodrigues cansou de mostrar que o Brasil é bizarro: prostituta se apaixona e mulher séria enlouquece por não poder se prostituir. Aí vem um certo Paulo Vieira é mete a mão na coisa pública. Ele era analista da Controladoria Geral da República. Função: combater a corrupção. Cabia-lhe constatar desvios éticos no Ministério da Educação. Uau! Deve ser por isso que pediu a senha e o CPF de um funcionário do MEC porque queria “dar uma perambulada” no sistema. Durante o passeio, aproveitou para alterar dados em favor da faculdade particular que criou no interior de São Paulo.
O cara estudava filosofia e, certamente com muito senso de humor, pretendia defender uma tese sobre o caso Demóstenes, o senador do DEM que se apresentava como paladino da ética e enchia os bolsos atrás do balcão. O jornal O Globo publicou esta declaração antropológica de Vieira sobre seus planos para o trabalho acadêmico: “Tava pensando aqui, vou discutir essa questão do conceito de ética, como é que a sociedade tá (sic) enfrentando isso no momento contemporâneo. Esse caso dele é simbólico demais, parece que ele criou uma dupla personalidade, né?” Vieira devia pensar tudo isso na frente do espelho. Ele e Rose, a ex-secretária de José Dirceu, que se apresentava como namorada de Lula e continuou como chefe de gabinete de Dilma em São Paulo, são muito amigos. Só brigaram uma vez: ela queria fazer um cruzeiro para ouvir Bruno e Marrone. Ele tinha outros planos. Um folhetim.
– Para com isso. Já descobriram o mensalão!
– Vou parar. Prometo.
– Enquanto dá tempo.
– É só eu resolver uns assuntos pendentes.
Ainda bem que o advogado de Vieira tranquiliza o país: seu cliente não fez nada de irregular ou ilícito. Que país este Brasil! Rose era chamada de madame, puxava as orelhas de ministros, era servida por Lula em festas, viajava pelo mundo na comitiva presidencial sem que seu nome constasse na documentação oficial e também, segundo ela mesma, nada fez de ilegal ou inadequado. É pura implicância da Polícia Federal. O império de Rose acabou.
– Estão no nosso bico.
– Este esquema é blindado. Não tem como descobrir.
– Sei, não. Se descobrirem, vai sujar geral.
Esses diálogos não vazaram de nenhuma escuta telefônica. Alguém duvida que possam ter acontecido? Estão aqui com obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Deve ter sido bem pior.