Resolvi radicalizar.
Fazer um teste extremo da minha popularidade.
Era a minha derradeira ocasião de mostrar que sou mais popular que o Paulo Coelho.
Marquei três sessões de autógrafos seguidas na Feira do Livro de Porto Alege.
Uma na terça-feira.
Duas em sequência na quarta.
Na de terça, por sorte, foi um punhado de gente.
Deu para o gasto.
Um leitor magnânimo destacou o tamanho da fila.
Fiz de conta que acreditava.
Prevendo o mico da quarta, apelei: convoquei a minha tia aposentada dessa função para fazer número.
Ela foi meu anjo da guarda em outros tempos.
Tempos de vacas magras e bois na linha.
Prometi ônibus e lanche a quem comparecesse.
Não funcionou.
Nem a minha tia apareceu.
Jogou a toalha. Entregou os pontos. Deu os doces.
Assinei meia dúzia de livros e fiz cara de paisagem.
Um horror!
Quis justificar. Falei sobre a crise dos livros em papel.
Critiquei a sociedade de consumo.
Previ a morte do livro. Louvei os e-books.
Tentei enganar os poucos que deram as caras dizendo que a Marta, minhã fã incondicional, era a minha tia.
Dei azar.
Falei isso logo para um cara que era amigo de infância da Marta.
De uma coisa posso me gabar: meus nove leitores mais fiéis estiveram presentes.
Refiz as contas para baixo.
Cheguei a pensar que tinha 37 leitores.
Ledo engano.
Terei de abrir mão do meu pedido de aumento salarial.
Por que será que o chefe sempre aparece quando não tem ninguém?
Direitos autorais nem pensar.
É dura a vida de autor.
Se continuar assim, encerrarei um ciclo.
Voltarei a ter zero leitores.
Ou menos seis.
Como na vez que os leitores do autor da mesa ao lado invadiram minha fila e pensei que eram para mim.
Voltei para casa e jurei:
Ano que vem vai.
Ah, vai!
Em todo caso, rompi relações com a minha tia.
Traidora.
Dizem que ela foi vista na sessão de autógrafos do David Coimbra.
Sou invejoso e vingativo.
Não ganhará mais produtos da Avon no Natal nem livros do Verissimo.
Traíra!