Juremir Machado da Silva

Rompi com a minha tia

Resolvi radicalizar.

Fazer um teste extremo da minha popularidade.

Era a minha derradeira ocasião de mostrar que sou mais popular que o Paulo Coelho.

Marquei três sessões de autógrafos seguidas na Feira do Livro de Porto Alege.

Uma na terça-feira.

Duas em sequência na quarta.

Na de terça, por sorte, foi um punhado de gente.

Deu para o gasto.

Um leitor magnânimo destacou o tamanho da fila.

Fiz de conta que acreditava.

Prevendo o mico da quarta, apelei: convoquei a minha tia aposentada dessa função para fazer número.

Ela foi meu anjo da guarda em outros tempos.

Tempos de vacas magras e bois na linha.

Prometi ônibus e lanche a quem comparecesse.

Não funcionou.

Nem a minha tia apareceu.

Jogou a toalha. Entregou os pontos. Deu os doces.

Assinei meia dúzia de livros e fiz cara de paisagem.

Um horror!

Quis justificar. Falei sobre a crise dos livros em papel.

Critiquei a sociedade de consumo.

Previ a morte do livro. Louvei os e-books.

Tentei enganar os poucos que deram as caras dizendo que a Marta, minhã fã incondicional, era a minha tia.

Dei azar.

Falei isso logo para um cara que era amigo de infância da Marta.

De uma coisa posso me gabar:  meus nove leitores mais fiéis estiveram presentes.

Refiz as contas para baixo.

Cheguei a pensar que tinha 37 leitores.

Ledo engano.

Terei de abrir mão do meu pedido de aumento salarial.

Por que será que o chefe sempre aparece quando não tem ninguém?

Direitos autorais nem pensar.

É dura a vida de autor.

Se continuar assim, encerrarei um ciclo.

Voltarei a ter zero leitores.

Ou menos seis.

Como na vez que os leitores do autor da mesa ao lado invadiram minha fila e pensei que eram para mim.

Voltei para casa e jurei:

Ano que vem vai.

Ah, vai!

Em todo caso, rompi relações com a minha tia.

Traidora.

Dizem que ela foi vista na sessão de autógrafos do David Coimbra.

Sou invejoso e vingativo.

Não ganhará mais produtos da Avon no Natal nem livros do Verissimo.

 Traíra!