Já chegaram os primeiros frios. O inverno virá. É inevitável. Os otimistas, que sempre os há para todos os tempos e temperaturas, já falam em vinhos, lareiras e sopas. Como diz um novo amigo da Redenção, juiz e ciclista, coisas que não se opõem mais, eles gostam é de calor: das cobertas, do álcool, das chamas – do imaginário, acrescento. Eu aceitaria o frio de bom grado se tivesse a duração de uma primavera. Tenho a impressão de que a primavera é como as famosas rosas de Malherbe: “Mas ela era do mundo em que vivem as coisas mais belas/Têm o pior destino:/E Rosa viveu o que vivem as Rosas,/O espaço de uma manhã”. Peguei pesado, não? Houve um tempo que “rosas de Malherbe” eram uma imagem tão banal, embora bela, quanto “chovia a cântaros” ou “o que não tem remédio, remediado está”. Era o tempo da poesia.
José Sarney, poeta nas horas ocupadas com o essencial, escreveu, eu juro, estas frases: “A rosa sempre exerceu uma sedução muito grande na mente dos políticos. Para uns pela atração de sua beleza em si e noutros pelo seu profundo vermelho, a cor do sangue, uma passagem rápida para a mensagem revolucionária”. A pandemia mexeu comigo. Cito o autor de “Marimbondos de fogo” em artigo de jornal: “Mas de todas as rosas da poesia nenhuma ficou mais célebre do que a Rosa de Malherbe. Esse Malherbe que fez odes aos índios do Maranhão quando foram batizados em Nôtre Dame, levados pelo sr. Razzily e sucesso em Paris. Só que todos morreram de gripe. As rosas de Malherbe são aquelas do seu poema tentando consolar Du Perrier sobre a morte de sua filha”.
Onde foram parar as rosas de Malherbe, as manhãs geladas de meus invernos juvenis, a poesia, essa rosa entre as rosas fanadas, e os articulistas políticos que, mesmo conservadores, aspiravam o perfume das rosas da revolução por gosto literário? Eu queria falar do inverno, mas as rosas de Malherbe não me deixam. Quem já não sentiu a musicalidade de uma rosa? Quem não se arrepiou com o cheiro do frio? Quem não se deslumbrou com a precisão de uma metáfora? Houve um tempo em que as metáforas andavam soltas no ar vestidas de lugares comuns.
Creio que tudo começou a desandar quando palavras como orvalho não encontraram mais uso corrente. Deve ter sido na mesma época em que o utilitarismo prosaico decretou a aposentadoria da poesia por invalidez e os economistas da Escola de Chicago passaram a garantir que o melhor dos mundos futuros estaria nas previdências privadas, não necessariamente nessa ordem, mas obrigatoriamente com esse desfecho. Poetas ainda existem. Só que os mais puristas avançam mascarados. Revelam-se apenas em reuniões secretas ou em páginas da internet profunda. No longo inverno das metáforas abandonadas as rosas fenecem, o inverno triunfa, os corpos se encarquilham e os políticos vicejam.
Quem esquecerá do outono de 2021? O vírus continuava a matar, testemunhas mentiam na CPI da Covid e Malherbe não caía em vestibular. Aliás, os vestibulares agonizam. Todo jovem deve ter direito a um lugar na universidade, onde saberá do orvalho, de rosas e de Malherbe.