Juremir Machado da Silva

Ruy Castro, mala com grife

Ruy Castro, mala com grife

O Brasil está cheio de estrelas com boas amizades. Ruy Castro e Fernando Morais são duas dessas estrelas sugadoras. Ambos fazem de conta que são biógrafos, mas não o são. Parecem romancistas, mas não saem do armário. Morais já narrou os pensamentos de Chatô em coma num livro que não se apresenta como ficção. Deve ter tido Chico Xavier como fonte. Castro e Morais parecem autores de grandes reportagens, mas não estampam essa expressão nas capas do seus livros. A arte deles consiste em colar em grandes personagens e sugar-lhe a fama até a última gota. Sempre dá certo. Morais costuma ter auxiliares decisivos. Nem sempre cumpre as promessas que faz aos seus “nègres”. Segue em frente altivo mesmo depois de ter sido obrigado por Paulo Coelho a eliminar passagens incômodas de “O mago”, sua última trambicagem rentável.
Ruy Castro acha que sabe mais sobre os seus “biografados” do que eles mesmos. Em texto publicado recentemente na Folha de S. Paulo, ele explica sua concepção de biografia: “Quando se trata de escrever uma biografia, há duas maneiras de fazer o serviço: deixar que a vida ilumine a obra do sujeito ou vice-versa. Na verdade, só os livros que se baseiam na vida de uma pessoa podem ser chamados de biografias. Os que privilegiam a obra como um meio de se chegar à vida são, mais precisamente, ensaios biográficos.
Só acredito na primeira opção - entre outras coisas, porque nem sempre a obra reflete a vida de alguém”.
Ao que tudo indica, apesar do “nem sempre a obra reflete a vida de alguém”, ele ainda acredita na explicação da obra pela biografia do autor, algo que pode ser chamado de anacronismo, de ignorância ou de contradição, salvo se for apenas um texto confuso, pois Castro escreve uma coisa e conclui outra: “Já um mergulho na vida desta pessoa poderá revelar inclusive a possibilidade de ela estar tentando se esconder em sua obra”. Ele mesmo dá exemplos de pessoas alegres e leves que escreveram obras torturadas ou trataram de pesadas questões metafísicas. A conclusão de qualquer leitor seria: a vida do autor não ilumina a obra. Nem o contrário. Complementam-se, opõem-se, andam em paralelo, confundem-se, depende de inúmeros e complexos fatores.
A conclusão de Ruy Castro é esta: “Tudo isso é para advertir os biógrafos de Dilma Rousseff, que não demorarão a pulular. Em sua obra pré-eleitoral, ela às vezes é Norma Bengell; em outras, Nelson Mandela. De manhã, é católica; à tarde, evangélica; à noite, macumbeira. Seu currículo inclui diplomas e créditos de faculdades que não frequentou. Tudo que diz lhe é soprado ao ouvido. Qual é a vida, qual é a obra? Hoje nem Dilma deve saber”. Ah, compreendemos: era apenas uma premissa “enrolation” para detonar Dilma com os mais rasteiros termos do senso comum. Qualquer biógrafo sabe que um biografado é sempre múltiplo, como todo ser humano. Ruy também sabe disso. Está na sua esquecida premissa. Como entender sua exigência de linearidade em Dilma Roussef?
Será que Ruy Castro é escritor descolado nas noites do Leblon e escriba conformista nas páginas da Folha de S. Paulo? Será que tudo o que diz nos jornais lhe soprado ao ouvido para ficar bem com o conservadorismo da sua empresa? Qual é a vida, qual é a obra? Será que não lembra que o racionalista Dr. FHC usava uma fitinha do Senhor do Bonfim no pulso? Por que será que a maioria esmagadora dos colunistas dos grandes jornais tem a mesma opinião estereotipada sobre Dilma? Será o pensamento único da cartilha do colunista da grande mídia? Será que Ruy Castro é apenas um simulacro de cronista livre?
No caso de Ruy Castro, pelo jeito, a vida ilumina mesmo a obra. Ele quer estar bem com os patrões. Cada vez que escreve um dos seus simulacros de biografia, ganha fartos espaços amigos na mídia. Ruy Castro é uma mala com grife. Pratica o estilo literário “me engana que eu gosto”. Sempre dá certo. A mídia paga bem pela adesão irrestrita ao conservadorismo, ainda mais com um tom intelectual. Castro escreveu sobre malditos sem o talento desses malditos. Grudou em Nelson Rodrigues, de quem, parece, mimetizou apenas o reacionarismo. Se Dilma ganhar, é bem possível que, cedo ou tarde, Ruy Castro escreva um livro arrasador sobre ela. Pode ser muito rentável. Ele já deve estar fazendo os cálculos e contatando a editora. A revista Veja daria oito páginas amigas. Bom negócio. Qual a vida, qual a obra?
Sei lá.