Juremir Machado da Silva

Sócrates, Platão e a maiêutica do futebol

Sócrates e Platão caminham à beira do Guaíba. Sócrates veste uma camiseta do Internacional. Platão ostenta a camisa do Grêmio. Sócrates anda pelos 70 anos. Platão recém chegou aos 50.

Socrátes nasceu em Cacequi. Platão é natural de Lavras do Sul.

É segunda-feira. Numa pegada conversa, falam do último Gre-Nal.

Junta-se a eles um jovem, Aristides, 25 anos no máximo, nascido em Caxias, sem camiseta de clube.

– Futebol não se discute – diz Sócrates.

– É o que mais se discute – rebate Platão.

– É que eu digo: futebol é indiscutível – insiste Sócrates.

– Como assim? – pergunta Aristides.

– Sempre que há discussão em excesso, falta argumentação. Logo é indiscutível – pontifica Sócrates.

– Chega de conversa fiada – intromete-se Platão. – O árbitro foi mal no Gre-Nal. Deveria ter expulsado o Willian e o D"Alessandro no primeiro tempo. Prejudicou muito o Grêmio.

– E o Adriano? Era falta de cartão amarelo indiscutível. Seria o segundo, expulsão – diz Sócrates.

– Como ele não expulsou o Willian, compensou não expulsando o Adriano.

– Então ele errou nos dois casos?

– Zero a zero.

– A expulsão do Willian é discutível. Nem todo pênalti exige o amarelo. Havia dois jogadores do Inter que ainda poderiam interceptar o do Grêmio antes de ele chutar a gol.

– Papo, Sócrates, você fala isso por ser colorado.

– O Bressan, por que ele não foi expulso?

– Por que não era lance de expulsão.

– Conversa, Platão. Você fala isso por ser gremista.

– Fato, Sócrates.

– Eu sou colorado, mas reconheço que o Grêmio jogou um pouco melhor.

– Não se pode negar os fatos, não é Sócrates? A realidade é a realidade.

– Ué, a realidade não está nas ideias?

– Engraçadinho!

– Acho que, no primeiro tempo, o árbitro deveria ter expulsado, pensando bem, o Willian, o Adriano e o Bressan. No segundo tempo, não deveria ter expulsado ninguém. Jorge Henrique não fez falta no Barcos, Fabrício não tentou agrediu o adversário e Rodolfo apenas entrou atabalhoado.

– Aí já não é a realidade, Sócrates, é cegueira ou delírio. Melhor, coloradismo. Uma câmera mostra Jorge Henrique fazendo a falta em Barcos. Um toquinho leve, mas existente.

– Não vi essa imagem.

– Mas passou.

– Onde?

– Na tevê?

– Vi o jogo na tevê e não teve essa imagem.

– Você deve ter ido ao banheiro na hora.

– Até o comentarista da tevê disse que não foi falta.

– Quem, o Batista?

– É.

– O Batista não conta.

– Por quê?

– É colorado e não entende nada de futebol.

– Ué, ele não é gremista?

– Gremista nada. Colorado. E não entende nada de futebol.

– Mas ele não foi um grande jogador?

– O cara pode ser um grande jogador e não entender nada de futebol.

– Como é que você sabe que ele não entende nada de futebol?

– Porque eu entendo de futebol, ora bolas!

– Como você pode provar que entende de futebol?

– Basta ver o que eu digo e o que você e o Batista dizem.

– Isso não é fanatismo?

– Fanático é tu, que acha que o juiz roubou para o Grêmio quando todo mundo viu que foi mais para o Inter. Eu olho os fatos, analiso a realidade, não fujo da verdade, digo o que é.

– É isento?

– Não. Sou gremista. Isento é tu que vê tudo pelo lado do Inter.

– Então toda posição minha é inválida por ter viés colorado e todo posição tua é inválida por ter viés gremista? Nesse caso, para que discutir? Não há argumentos, só fala. Futebol é indiscutível.

– Não me vem com tua maiêutica barata, Sócrates.

Aristides espanta, engasga-se, finalmente pergunta:

– Mai o quê?

– Maiêutica – diz Platão.

– Que droga é isso?

– Pegadinha – esclarece Sócrates.

– E os fatos? – indaga ingenuamente Aristides.

– Que fatos? – empertiga-se Sócrates.

– Os fatos do jogo? Os fatos mostrados pelas imagens? – balbucia Aristides.

– Os fatos dependem dos olhos de quem os vê, das lentes de quem os enxerga, do ponto de vista de cada um – ensina Sócrates, subitamente se parecendo muito com Platão.

– Os olhos dos colorados sempre veem mais ou menos – ironiza Platão.

– Para que discutir? – pergunta infantilmente Aristides.

– Você gosta de futebol? – irrita-se Sócrates.

– Mais ou menos.

– Ah! Já vi tudo. Mais um que não entende de futebol – define Platão.

*

Obs: esse diálogo tem claro viés colorado. Por que Sócrates, o mestre, não é gremista? Percebe-se no autor do texto mais simpatia pelo Sócrates do que por Platão. Isso, sem dúvida, é indiscutível.