Juremir Machado da Silva

sabedoria centenária em época de eleição

Um comentarista político encontrou um ancião no alto de um morro. O sábio colocou um livro do Paulo Coelho de lado para atender o peregrino, que ficou um pouco chocado com a leitura do mestre. Como já tinha andado até o monte (morro não soa bem na retórica da magia e do esoterismo), embora tenha feito uma parte do caminho de ônibus, resolveu ouvir as palavras do velho. Detestava perder as viagens.

– Aproxime-se, filho.

– Mestre Santiago, estou em dúvida...

– Entre Aécio e Dilma?

– Não, não...

– Então me diga em quem votar, filho.

Que droga de mestre, pedindo conselho. Ficou paralisado. Um gato veio se roçar nas pernas magras do anfitrião, que o acariciou:

– É o Mujica – disse, enlevado, antes de rir com gosto.

– Mestre, eu queria saber se devo...

– Votar em Tarso ou em Sartori...

– Não, não...

– Então, filho, me diga, que eu ainda não sei. Gosto dos dois. Também gosto da Dilma e do Aécio. Sou liberal de manhã, neoliberal de tarde e intervencionista de noite. É a minha veia complexa que me domina.

Estava difícil de falar. O mestre parecia ter mais dúvidas do que o discípulo e só estar interessado na disputa eleitoral. Para se livrar do assunto e abrir caminho ao que lhe interessava, sugeriu:

– Vote nulo, mestre. É o que eu vou fazer.

– Isso é uma ironia?

– O mestre não sabe identificar uma ironia?

– Sou péssimo em jogos de linguagem.

Ficaram em silêncio durante longos segundos. O mestre parecia atônito. O discípulo aguardava que o veterano digerisse a informação. Por fim, falando pausadamente, o velho sábio começou a ponderar.

– A ironia, filho, é muito perigosa. Ela faz pensar. Dá muito trabalho. Há quem, como eu, não entenda e até se confunda. O máximo de ironia que consigo compreender é o que diz o Felipão. Ou o Dunga. O bom de votar nulo é que assim não se precisa esconder o voto.

– A sua simplicidade me comove, mestre.

– Tenho aprendido muito lendo o Paulo Coelho.

– O senhor?

– Sim. Tenho aprendido a ser humilde. Depois, vou ler José Sarney.

– Sarney?

– Não devemos ter preconceitos.

O discípulo começou a se preparar para o retorno. Sentia-se de mãos vazias. O seu amado mestre não passava de um idiota. Como não percebera antes? Ficava no alto de um morro lendo porcaria. Não conseguia nem sequer escolher sozinho um candidato em quem votar. Começou a andar. Nem se despediu. O velho ficou alisando o dorso do seu gato Mujica, que contemplava o céu como se fosse de porcelana. Depois de quatro passos, estacou. Uma ideia iluminou-lhe o rosto.

– Mestre, o senhor estava sendo irônico?