Parecia fakenews. É a mais brutal verdade. Mulher negra, defensora dos direitos humanos, assassinada. Parece delírio: quinta vereadora mais votada (PSOL-RJ), oriunda do complexo de favelas da Maré, cria de favela, a socióloga carioca Marielle Franco foi executada pouco tempo depois de ter denunciado no twitter casos de violência policial: “O que está acontecendo agora em Acari é um absurdo! E acontece desde sempre! O 41° batalhão da PM é conhecido como Batalhão da morte. CHEGA de esculachar a população! CHEGA de matarem nossos jovens!” Marielle nunca se calou. Era conhecida por seu inconformismo. Lutava todo dia. Nesse tipo de luta, todo dia tem o peso de séculos.
O Brasil afunda-se na sua podridão. Juízes fazem grave em defesa de um insustentável auxílio-moradia. O Supremo Tribunal Federal legisla e reescreve a Constituição a seu bel-prazer. O artigo 5º da Constituição Federal é apedrejado todos os dias. O inciso XVI garante que “todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização”. Vereadores aprovam lei que determina o contrário. Prefeito sanciona. Manifestações só poderão acontecer em certos locais e horários sob consentimento do executivo.
Isso não caracteriza regime de exceção? Ministro do STF legisla e atropela atribuições de outros poderes. O inciso LVII do artigo 5º da CF diz que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. O STF resolveu entender que isso nada tem a ver com o início do cumprimento de pena. Pode-se, então, começar a cumprir pena antes de ser considerado culpado? Parte da população vibra com o voluntarismo judicial. Acredita que isso acaba com a impunidade. Pelo mesmo motivo outra parte, ou parte da mesma, aplaude a violência policial, que não vê como abuso, e ataca os direitos humanos, entendidos como proteção de criminosos. Para que serve uma Constituição se o que ela diz pode ser ignorado a cada dia ou simplesmente reinventado por quem tem a força?
Marielle Franco é a mais nova mártir num país acostumado a matar negros sem que isso produza panelaços de classe média branca. Não se trata de misturar assuntos com intenções ideológicas oportunistas mal dissimuladas, mas de perguntar o que ressoa na mente no silêncio da nossa estupefação: por que o Brasil não para por Marielle Franco? Por que o Brasil não sai às ruas por seus jovens negros assassinados? Por que o Brasil não se mobiliza contra a violência de todos os tipos, inclusive a policial? Por que o Brasil aceita com resignação que sua juventude pobre seja dizimada fazendo de nosso país um lugar mais violento do que nações em guerra? Tudo se interliga. Tudo se conecta. Houve manifestações. Pessoas foram às ruas. Ainda é muito pouco. Uma parte calou.
Por conveniência, desrespeitamos a Constituição. Por comodidade, ignoramos a morte de estranhos. Fechados em espaços cada vez mais gradeados e blindados, tentamos esquecer o horror que avança. Saturados, queremos fugir para a exterior. Por que não nos decidimos a mudar o Brasil? Por que não exigimos uma Constituição para ser cumprida? Por que reelegemos corruptos? Por que não encaramos a realidade? A execução de Marielle é mais um sinal. De quê? Do caos nosso de cada dia. Faremos um minuto de silêncio por Marielle em todos os jogos de futebol? Ou silenciaremos. O sacrifício de Marielle foi um choque em nossa percepção. Revelou a incompetência da intervenção no Rio de Janeiro.
Na cena internacional o Brasil voltou a envergonhar.
Até quando?