Saudades do bonde que eu não conheci
O Bonde
Quem se lembra do bonde? Em quanto lugares ainda se toma um bonde pelo simples prazer de entrar numa espécie de máquina do tempo rudimentar e escancarada para tantas paisagens? Os trilhos que, em muitas cidades, como Porto Alegre, servem de vestígios de uma era romântica são uma tecnologia do imaginário. Abrem nossas mentes para o passado. Mas isso pode ser feito como uma literatura do presente e com uma forma narrativa ainda de vanguarda. É o que faz Claude Simon em, como não poderia deixar de ser, O Bonde, ainda disponível em algumas casas do ramo (ou da rama), os sebos.
Mescla de romance e de autobiografia, O Bonde encanta pela fluência e pela capacidade do autor escrever memórias segundo um fluxo contínuo de impressões livres e aos borbotões.
Os porto-alegrenses que conheceram o bonde vão se encontrar nessa história em que a infância é vista, por assim dizer, do estribo de um velho bonde, no caso, entre a cidade e o mar. Dado que o ponto de vista é tudo, Claude Simon lança mão de vários ao mesmo tempo: o velho que lembra do bonde; o menino que descobre as curvas da existência ao lado do condutor. O mundo nos trilhos de um bonde. Um mundo que se abre, por exemplo, para os horrores do nazismo, deixando para trás a inocência infantil.
Claude Simon, Prêmio Nobel da Literatura de 1985, foi um gênio da renovação das formas de contar uma histórias, sem cair no obscurantismo nem ceder à falta de imaginação. A gente lê e pensa: se eu fosse contar as minhas lembranças de criança empoleirada num bonde, contaria exatamente como ele. Pura ilusão!
Por trás da facilidade aparente, esconde-se a grande arte. O Bonde fala do passado com uma linguagem do futuro, embora plasmada no presente das inúmeras obras do grande escritor francês.
Grande literatura é assim: de repente, do nada, dá vontade de chorar ou de soltar uma gargalhada.
Em O Bonde, a seqüência de frases que se atropelam, numa algazarra de sentidos e gritos, acelera o coração do leitor e a emoção vai cortando fininho, abrindo fendas na pele. Quando menos se espera, num solavanco, a memória daquilo que pode nem se ter vivo começa a pinicar. Como pode ser? Um livro curto, um livrinho, uma história singela, trivial, um jorro de pensamentos, algo tão palpável e, contudo, supremo mistério literário, uma dança emotiva tremenda. Magia literária.
Reli O Bonde, que eu traduzi, hoje. Em duas horas.
À noite, vou tomar uma garrafa de vinho.
O saudosismo em causa me pegou.