Juremir Machado da Silva

Schopenhauer no Arpoador

Fui ao Rio de Janeiro a trabalho. Passei pelas situações engraçadas e criativas de sempre com os taxistas. Motorista carioca sempre tem uma novidade:

– Hotel ou residência, doutor?

– Qual a diferença?

– O preço.

Amo o Rio de Janeiro. Mesmo sob a chuva. Fomos andar sobre os passos de Vinicius de Moraes em Ipanema e no Leblon. Maria Creusa continua cantando Vinicius no Vinicius, em frente ao Garota de Ipanema. Faz bem. O Rio sabe alimentar a sua nostalgia. Na Casa de Cultura Laura Alvim, na Vieira Souto, vimos “1958, a bossa do mundo é nossa”, comédia musical dirigida por André Paes Leme. Uma viagem no tempo com direito a “meu mundo caiu” e jingles como o clássico das Casas Pernambucanas: “Quem bate? É o frio. Não adianta bater que eu não deixo você entrar...”

A cidade maravilhosa é gentil. O sábado foi ensolarado. Perfeito para ler Schopenhauer no Arpoador. Isso depois de ter lido o belo novo romance de Duca Leindecker, “O menino que pintava sonhos”(L&PM). Está muito bem escrito. Tocante. A única coisa que me incomoda é certa marca do imaginário dominante na literatura brasileira atual: estica-se a corda do texto ao máximo para provocar uma sensação de tensão narrativa. Disso resulta que até quando o personagem está feliz ele parece triste. O leitor deve permanecer incomodado. Fora isso, que talvez seja só da minha percepção, um lindo livro.

Schopenhauer era um ranzinza divertido. Metia o pau nos “entortadores” da língua. Chamava Hegel de charlatão. Queria clareza, profundidade e elegância. Tinha tiradas como esta: “Todo escritor medíocre procura mascarar seu estilo próprio e natural”. Disso nasceria um desastre: “As cabeças banais simplesmente não podem se decidir a escrever de modo como pensam, porque pressentem  que, nesse caso, o resultado teria um aspecto muito simplório”. O velho turrão recomendava: “A primeira regra do bom estilo, uma regra que praticamente se basta sozinha, é que se tenha algo a dizer”. Aí já é pedir demais. Uma maneira de esconder a falta do que dizer é dizer o nada com floreios retóricos e neologismos.

Essas observações de Schopenhauer constam em “A arte de escrever”(L&PM). Esta, que ele considerava típica dos alemães do século XIX, serve para os brasileiros do século XXI: se algum “rabiscador” produz “sem escrúpulos, qualquer palavra inusitada, em vez de levar uma surra nos jornais, é aplaudido e encontra imitadores”. Schopenhauer defende a literatura como um diálogo. Os autores obscuros preferem monólogos: “O autor fica deliciado, mas que o céu dê paciência ao leitor”. É o que acontece com o livro do ganhador do prêmio Jabuti de 2013, “O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam”, Evandro Affonso Ferreira? Para ganhar prêmio basta produzir manchas em lugar de luminosidade? Exemplo: “Quando estamos a poucos passos do destrambelho in totum parece que perdemos o asco o olfato a autoestima. Menos esperança. Coração possivelmente transforma-se em uma caixa de Pandora às avessas”. Parei de pensar no assunto por causa da beleza límpida das garotas do Arpoador.