Selfie do Brasil
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Selfie do Brasil

Desembargador desmascarado


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      O tempo passa, as tecnologias mudam. Dizia-se uma radiografia para um painel, um aprofundamento, uma imagem detalhada. Hoje, fala-se uma tomografia. Roger Bastide escreveu uma obra-prima, “Brasil, terra de contrastes”. Paulo Prado publicou o seu “Retrato do Brasil”. Eram os tempos de ouro do ensaísmo documentado no país. Encolhemos? Ou temos agora imagens mais nítidas de nossas contradições? O desembargador Eduardo Siqueira, que tentou humilhar um guarda em Santos ao receber uma multa justa por não usar máscara de proteção contra o coronavírus, tirou uma selfie com o Brasil ao fundo.

      Siqueira aplicou o famoso “você sabe com quem está falando” tão estudado pelo antropólogo Roberto DaMatta. Ligou para o chefe do guarda, rasgou a multa e consagrou uma frase patética sobre a máscara:
“Eu, de hábito, não uso”. Eis o Brasil. Ou parte dele. É o mesmo Brasil que comete infração de trânsito e não quer pagar a multa alegando que se trata de “prática arrecadatória”, “indústria da multa” e outras lorotas do gênero. Tudo isso coroado com o cinismo pedagógico segundo o qual em lugar de multar se deve educar a população. O desembargador de Santos deu vexame. Por quanto tempo ele sustentou a sua prepotência com o auxílio-moradia, um retrato do Brasil de escandalosos contrastes e vergonhosa falta de pudor e republicanismo?

      Pego em flagrante, filmado fazendo sua pornográfica selfie, o magistrado diz-se vítima de armadilha e promete tomar as “medidas cabíveis”. Quais? Só caberiam pedido de desculpas e enfiar a viola no saco. O desembargador rotulou o fiscal de analfabeto. Na cultura bacharelesca falar difícil, usar latinórios, ostentar ou inventar diplomas, sem a devida educação como formação ética, faz parte de um sistema de hierarquia social. O juiz que declara uma greve ilegal ou determina a desocupação de um prédio inútil pode ser o mesmo que recebia auxílio-moradia tendo casa na praia, na montanha e no paraíso. O mesmo que admitia receber o auxílio imoral como compensação por perdas salariais. Eduardo Siqueira tirou a máscara. Nem a colocou.

      Bastide e Prado pensavam o Brasil panoramicamente. Uma pista para o que aparece nas selfies de agora: racismo estrutural, elitismo, clientelismo, patrimonialismo, cartorialismo, neocoronelismo, tudo. Já que estou falando em livros que tentaram penetrar nas entranhas do Brasil, com boas intuições e dados nem sempre exaustivos, não há como fugir de “Os donos do poder”, de Raimundo Faoro. Ah, não posso deixar de destacar o subtítulo do livro de Paulo Prado: “Ensaio sobre a tristeza brasileira”. Não é o que sentimos quando um desembargador dá carteiraço para mostrar quem são os “donos do poder”? Sofrerá punição? Será aposentado compulsoriamente com salário integral? O modernista Paulo Prado pretendia que quando tudo está errado, o melhor corretivo é o apagamento de tudo que foi mal feito”. O tempo das revoluções passou. Quando passará o tempo do “você sabe com quem está falando”?