Esta conclusão é científica: é possível ser feliz de sapato no parque. Também é possível se divertir vendo intermináveis sessões de uma CPI. Tem tudo o que o público de MMA quer, sem o mesmo nobre ideal de respeito ao adversário. Eu só me interesso das questões políticas pelo anedotário. É o que fica. Quem não se lembra dos anões do orçamento? Quase todo mundo esqueceu do orçamento. Como era politicamente incorreto aquele tempo. Nos anais da história do Senado ficará gravado o momento em que Flávio Bolsonaro chamou Renan Calheiros de vagabundo. A resposta do ínclito agredido também constará como uma das mais curtas e diretas do famoso estilo “bateu, levou”:
– É você!
A boiada passou. É incrível como uma língua se adapta ao tempo. Os esnobes acham que a poesia é intraduzível e que só é possível filosofar em alemão. Está provado que poucas línguas são tão perfeitas para o insulto como o português. Russos e árabes parecem insultar até quando fazem declarações de amor, segundo ouvimos dizer pelos tradutores. Em português do Brasil o insulto sai melífluo, envolto em doces vogais e embalado em imagens que desconcertam. Somos o que somos pelo uso que fazemos impunemente das vogais. É o que nos distingue dos portugueses. O temperamento é definido por consoantes e vogais. Sempre fico com um pé atrás com quem explora vogais como se fossem flautas.
Da semana guardei a imagem de Fábio Wajngarten secando o suor da testa quando tomava sufoco na CPI. E o tempo da carta da Pfizer sem resposta do governo brasileiro: dois meses. Lembrei de quando eu era criança e contava o tempo para crescer. Não passava. Graciliano Ramos imortalizou o personagem “Soldado amarelo” como símbolo de opressão. Fabiano, o oprimido, invejava o seu poder de linguagem. Teríamos agora o General Amarelão? Tudo isso como hipóteses, que é o nome dado a todas as possibilidades sorrateiras jamais confirmadas ou negadas.
A CPI vai dar em nada? Possivelmente seja o que ela busca. O nada é uma condição nebulosa entre o tudo e o quase. É medido pelas pesquisas de opinião, que fotografam o humor galhofeiro dos eleitores. Quanto mais uma CPI produz piadas, maior a sua capacidade de ampliar estragos, mesmo que termine em pizza de banana, o grau zero da pizzaria. Ou sobretudo. Não, não é a CPI que termina de sobretudo. Normalmente mostra as cuecas dos investigados. Modernamente uma CPI se define pelo número de memes que gera. A CPI da Covid já é um enorme jacaré. Só não vê quem não entende desses bichos tão simpáticos.
A semana também marcou pela alteração da legislação ambiental e pelo teto salarial duplo para militares. Com dois tetos, por óbvio, fica-se mais abrigado contra as intempéries. Há os sem teto e os com dois tetos. Nos bons tempos da segurança reforçada usava-se sapato e galocha. Depois, as galochas foram declaradas ultrapassadas, como havia acontecido com as bengalas, e a cultura mudou para sempre, do quepe e do capacete ao telhado de vidro é uma longa evolução social. Tudo se resume a imagens, vogais, memes e piadas. Nada como uma CPI.