É hora de vestibular na Ufrgs.
Hora de defender as cotas.
Na verdade, sou contra cotas para brancos ricos, que dominam 99% dos cursos mais procurados.
O vestibular é um sistema de reprodução da desiguldade social.
Não há muito mérito em o hiperpreparado pela situação familiar vencer o subpreparado pela condição histórica.
Republico alguns dos meus textos sobre o tema a pedido de leitores.
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As portas da Ufrgs
A tese de João Vicente Silva Souza, “Alunos de escola pública na Universidade Federal do Rio Grande do Sul: portas entreabertas”, defendida no Programa de Pós-Graduação em Educação, orientada pela professora Malvina do Amaral Dorneles, é um manancial de informações. Outro dia, eu não fui preciso: disse que havia mais vagas para pedagogia do que para medicina. Não é mais isso. A distorção é outra: a relação proporcional entre oferta e procura. E o fato de que quanto mais o curso é procurado e exige uma pontuação maior para ingresso, mais o elemento socioeconômico prevalece. A vida é simples.
Em 1986, um estudo citado por João Vicente concluía: “Embora não seja pequeno o contingente de candidatos oriundo das camadas de menor renda da população que buscam uma vaga na Universidade (...) são raros os que conseguem, pois a maioria das vagas são ocupadas por candidatos oriundos de famílias economicamente privilegiadas”. Mais de vinte anos depois, mudou um pouco, mas não tanto quanto deveria. Ter feito um cursinho continua sendo uma grande vantagem: “Os percentuais de candidatos inscritos e de classificados que não fizeram esses cursos no período de 75/83 (39,1% e 23,8%, respectivamente) é praticamente o mesmo dos percentuais do Concurso Vestibular de 2007 (41,2% e 25,7%, respectivamente)”.
O óbvio se impõe pelas estatísticas para desespero de muitos: “Além da desvantagem dos candidatos que não frequentam Curso Pré-Vestibular (...) os percentuais de classificação desses candidatos aumentam conforme aumenta a renda familiar, mostrando ser esta outra variável de grande importância em relação aos resultados do Concurso Vestibular. Essas diferenças ocorreram de forma semelhante nos Concursos Vestibular de 2004, 2005 e 2006”. O bom é que “em 1975, por exemplo, 72,4% dos candidatos aprovados no Concurso Vestibular da UFRGS pertenciam a esta faixa de renda. Tal desproporção, no entanto, foi perdendo força na medida em que mais alunos das faixas menores de renda (...) foram ganhando espaço”.
A quebra da assimetria, porém, ainda não terminou. A partir de 2008, vê-se que “a adoção da Reserva de Vagas para os alunos das Escolas Públicas não contribuiu para aumentar a presença desses dentre os candidatos inscritos, embora agora sejam maioria dentre os classificados”.
Com as cotas, cresceu a “participação dos candidatos das faixas mais baixas de renda (até 5 salários mínimos), tanto entre os inscritos (52,4%) quanto entre os classificados (47,0%)”. Funciona.
A tese de José Vicente traz 17 histórias de vida de jovens que alcançaram um lugar na Ufrgs. O autor resume: “Sendo a UFRGS considerada por esses jovens como um lugar desejado, um mito, uma meta, um monstro, uma mãe, um acaso, e muitas outras possibilidades, percebe-se que ela também é o lugar dessa diversidade que se descortina aos poucos (para aqueles que estão preparados para compreendê-la) ao entreabrir suas portas por conta da sua Política de Ações Afirmativas recém-iniciada”.
Tudo sobre a Ufrgs
Na vida é importante saber a hora de matar a cobra e mostrar o instrumento de abate. Quem quiser saber tudo sobre os mecanismos de acesso à Ufrgs, antes e depois das cotas, deve ler a tese de João Vicente Silva Souza, “Alunos de escola pública na Universidade Federal do Rio Grande do Sul: portas entreabertas”, defendida no Programa de Pós-Graduação em Educação, orientada pela professora Malvina do Amaral Dorneles. O trabalho é um tesouro de informações e de análises rigorosas. Serei radical: só pode continuar a falar seriamente do problema das cotas, em terras gaudérias, a partir de agora, quem tiver lido e digerido esse estudo minucioso e profundo.
Num dos capítulos, “caracterizações socioeconômicas dos vestibulandos da Ufrgs: 1974 a 2099”, com uma profusão de tabelas, João Vicente examina aspectos decisivos para o entendimento da questão: desempenho dos alunos de escolas públicas, dados sobre o vestibular na Ufrgs, o acesso antes das cotas, perfil dos candidatos desde a década de setenta, a mudança depois das cotas e outros detalhes esclarecedores. O autor trabalha a complexidade das variáveis, alertando contra reducionismos, e mostra, na ponta do lápis, o evidente: “Sabemos que os cursos de maior prestígio, densidade ou argumento de concorrência, geralmente são os que mais evidenciam as assimetrias socioeconômicas representadas em números e percentuais. Basta considerarmos o caso dos cursos cujo ‘ponto de corte’ costuma ser muito alto (Medicina, Direito diurno, Administração diurno, Biomedicina, Publicidade/Propaganda, Design Produto, Design Visual e Relações Internacionais). Em tais cursos, nenhum dos candidatos autodeclarados negros de Escola Pública se classificou através da adoção do Sistema de Reserva de Vagas no ano de 2008”.
A luta continua.
Ao longo dos anos, a Ufrgs vem adotando medidas para diminuir as desvantagens dos menos aquinhoados economicamente. Em 2009, “34.533 candidatos concorrerem às 4.556 vagas oferecidas nos 75 Cursos de Graduação (presenciais) oferecidos”, sendo que “22.785 candidatos se inscreveram na modalidade de ingresso chamada de ‘acesso universal’, 10.341 na modalidade ‘ensino público’, e 1.427 vagas na modalidade ‘ensino público autodeclarado negro”. Das 4.556 vagas oferecidas, 3.148 foram destinadas ao ‘acesso universal’, 704 para os alunos de escolas públicas e 704 para os alunos autodeclarados negros de escolas públicas”.
Há uma distorção: “De 1990 a 2005, por exemplo, o número de egressos do Ensino Médio no Rio Grande do Sul aumentou 3,1 vezes, passando de 37.352 para 116.748, respectivamente, sendo que o número de vagas para os cursos de graduação na UFRGS no mesmo período aumentou somente 1,3 vezes, ou seja, de 3.156 em 1990 para 4.283 em 2005”. É básico: o governo do “analfabeto” Luiz Inácio fez o que os doutores deixaram de lado: “Nos últimos seis anos (de 2003 até 2009), o Ensino Superior Federal duplicou o número de vagas em todo o país (de 113.938 em 2003 para 227.000 em 2009)”. Pobre da cobra.
Ingenuidade ou hipocrisia?
Raças não existem. Mas existem diferenças de cor de pele. Raça é uma noção inventada para tentar justificar biologicamente uma escala culturalmente discriminatória. Outro dia, a propósito da polêmica das cotas, ouvi um sociólogo, Demétrio Magnoli, defender na televisão essa posição evidente para qualquer cientista honesto e sem preconceitos. Na sequência, Magnoli, um dos que assinaram o manifesto contra as cotas entregue aos STF, afirmou com um sorriso arrogante que é uma bobagem falar em discriminação racial no Brasil de hoje.
Eu só pude tirar uma conclusão: Magnoli é um idiota. Ou um ingênuo. Salvo se for má-fé.
Tudo, porém, no seu discurso parecia realmente isentá-lo de má-fé. Faltava-lhe malícia para isso.
Ficamos, então, com ingenuidade ou hipocrisia.
Vai ver pretendia afirmar que só existe por aqui preconceito de cor. Não era isso. Ele acha que a desigualdade é meramente econômica. Isso é falso. Qualquer indicador social mostra o lugar ocupado pela maioria não-branca em nosso país. Ainda não resolvemos a herança da escravidão. Talvez pelo fato de que há reles 120 anos ainda tínhamos escravos. É claro que o Brasil poderia se livrar das cotas. Bastaria dar vagas para todos os aprovados num concurso de final do ensino médio. Tenho repetido incansavelmente, para desgosto de muitos, que, sendo o estoque de vagas limitado, o Estado prefere distribuí-lo para os mais aquinhoados com base no falacioso critério do mérito, um sistema de hierarquia social e de reprodução da desigualdade histórica.
Não cobro pelas minhas sugestões. O Estado poderia fazer um concurso nacional ao final do ensino médio. Todos os que atingissem certa média ficariam aptos a reclamar vagas em determinados cursos. Cada um, porém, deveria apresentar comprovante de renda familiar. A partir de um certo patamar, como já sugeriu um leitor meu em outra ocasião, pagaria certa quantia. Quem ganha mais, paga mais. Quem não ganha, estuda de graça. Caetano Veloso também assinou o manifesto. Nada de estranho. Caetano é famoso por comprar todas as brigas erradas do país.
É seu jeito de ser. Cantando é um gênio. O espantoso é que esse pessoal parece não ter assinado um manifesto antes para reclamar urgência na melhoria do ensino básico. As cotas nas universidades funcionam como as invasões de terra: é a política do pé na porta. Sem ambas, com seus acertos e erros, tudo continuaria igual.
Magnoli conseguiu dizer uma besteira ainda maior. Segundo ele, as cotas nada tem a ver com exclusão ou inclusão, pois podem beneficiar negros ricos. Pensando bem, só pode ter algo de má-fé aí. Quando se toma a exceção pela regra, como argumento racional, tem sacanagem no meio. Acho que subestimei o sujeito. A explicação de Magnoli para a estranha coincidência entre pobreza e não-brancos é regional. A maioria não-branca se concentra no norte e no nordeste, regiões historicamente mais pobres. O presente é absolvido pelo passado, um passado de escravidão.
A questão não é apenas como fazer para que num futuro breve os não-brancos e os pobres brancos cheguem as universidades, mas como fazer para que os adolescentes atuais em idade de seguir um curso superior possam fazê-lo. Chega de promessas e de adiamentos. O resto é conversa fiada para manter tudo intocado. Deixei a piada para fim: Magnoli teme que as cotas criem discriminação racial (ou de cor) no Brasil.