Juremir Machado da Silva

Será a hora de parar de ser goleador?

Sábado, como sempre, fui jogar futebol. Faz 20 anos que isso se repete com os mesmos amigos.

Nesse longo caminho, já morreu mais de um time.

Teve até minuto de silêncio pelo Alexandre.

Outros se aposentaram por preguiça.

Alguns pararam por lesão.

Já visitei muitas clínicas de traumatologia de Porto Alegre em finais de semana: joelho, dedo quebrado...

Já entortei muitos óculos.

E já fiz mais de mil gols (é futebol de salão). São duas horas de jogo. Termina 33 a 31. Ou mais.

Mas a gente conta de outro modo: 33 a 31 são 2 a 0.

Neste sábado, dividi uma bola com dois guris de uns 20 anos.

Tentei passar entre os dois. Voei. Tive tempo de pensar: como será menos pior cair?

Um amigo falou: "Cuidado, as mãos".
Dei uma inclinada e cai de lado. Senti o ombro esquerdo estremecer.

Vi estrelas. Mas continuei a jogar. Meio apagado.

De noite, em casa, senti que não passaria sem atendimento médico.

No domingo de manhã, fui muito bem atendido no Pronto Socorro Cruz Azul.

Estou bem. Nada grave. Estarei em condições de atuar no próximo sábado.

Cheguei a ficar um pouco com o braço imobilizado. Mas já foi.

A questão é que comecei a pensar no poema de Eliot, o poema que mais adoro.


EAST COKER (PARTE II DOS QUATRO QUARTETOS)


"Em meu princípio está meu fim. Umas após outras

 As casas se levantam e tombam, desmoronam, são ampliadas,

 Removidas, destruídas, restauradas, ou em seu lugar

 Irrompe um campo aberto, uma usina ou um atalho.

 Velhas pedras para novas construções, velhos lenhos para

 novas chamas,

 Velhas chamas em cinzas convertidas, e cinzas sobre a terra

 semeadas,

 Terra agora feita carne, pele e fezes,

 Ossos de homens e bestas, trigais e folhas.

 As casas vivem e morrem: há um tempo para construir

 E um tempo para viver e conceber

 E um tempo para o vento estilhaçar as trêmulas vidraças

 E sacudir o lambril onde vagueia o rato silvestre

 E sacudir as tapeçarias em farrapos tecidas com a silente

legenda.

 Em meu princípio está meu fim. Agora a luz declina

Sobre o campo aberto, abandonado, a recôndita vereda

Cerrada pelos ramos, sombra na tarde,

 Ali, onde te encolhes junto ao barranco enquanto passa um

 caminhão,

 E a recôndita vereda insiste

 Rumo à aldeia, ao aquecimento elétrico

 Hipnotizada. Na tépida neblina, a luz abafada

 É absorvida, irrefratada, pela rocha grisalha.

 As dálias dormem no silêncio vazio.

Aguarda a coruja prematura."

*

Terá chegado o tempo de largar o futebol?

De não colocar mais a bola lá onde dorme a coruja prematura?

Deixar de ser o lobo da área e o rato silvestre que vagueia na quadra?

Não produzir mais com farrapos a silente legenda das fantasias pessoais?

Em meu princípio, está meu fim.

Terá chegado a hora?

Cláudia me convida para caminhar na Redenção.

É bom.

Mas o futebol é divertimento sem tamanho.

Doutor Vallandro, mestre dos joelhos, me aconselhou, na última lesão, a pendurar os tênis.

Não consegui.

Sou dependente.

Novo susto. Será um sinal?

Melhor parar inteiro do que ficar com uma sequela para a terceira idade?

Estou na idade da pós-razão.

Aquilo que dá prazer tende a vencer os piores e os melhores argumentos.

Resta a memória dos ossos machucados e dos ligamentos pedindo clemência.