Palavras mudam até de sexo. De gênero. E não é por ideologia. Passam do feminino o masculino e do masculino ao feminino. O errado de ontem, em qualquer língua, pode ser o certo de hoje. A língua funciona como um sistema de hierarquia social pelo qual as pessoas são classificadas. Disse “menas”. Excluído. Na prática, todos cometemos alguma infração. Umas são consideradas toleráveis. Outras, não. Como o álcool e a maconha. Franceses e espanhóis podem falar “mais grande”. Falantes do português, não. Franceses não devem pronunciar o “s” do plural. Nós, obrigatoriamente. Um exemplo interessante de mudança de gênero em francês é a palavra amor. Logo ela. Já foi feminina. Virou masculino. Ainda aceita os dois. Masculino no singular. Feminino no plural. Masculino na restrição. Feminina na inclusão e na pluralidade.
Quem já não escutou um clássico da música popular francesa, “Que reste-t-il de nos amours”, com Charles Trenet? Diz assim: “Ce soir le vent qui frappe à ma porte/Me parle des amours mortes” (Esta noite o vento que bate à minha porta/me fala das amores mortas). Não é só para rimar com porta. No sentido erótico o plural de amor tem de ser feminino. Uma expressão corriqueira em francês é esta: “revenir à ses premières amours” (voltar às suas primeiras amores). Mais duas palavras mudam de gênero em francês quando passam do singular ao plural: “délice” e “orgue”. Este sorvete é “um” delícia. As delícias do verão. Uma letra do grande Serge Gainsbourg diz: “Escute as órgãos. Elas tocam para ti”. Mas se deve dizer “o órgão está quebrado”.
Adoro a lascívia das línguas, que são convenções, sistemas abertos, interativos, em constante transformação. As academias tentam amordaçá-las. O povo trata de modificá-las nas ruas. Vivo falando disso. Tenho as minhas obsessões. Sou um tarado semântico, um anarquista gramatical. O Brasil inteiro abandonou a mesóclise (dir-te-ei), salvo Michel Temer imitando Jânio Quadros, e a ênclise (pronome depois do verbo), salvo na escrita. O que há de sagrado no texto para que se preserve essa forma anacrônica ao sul do Equador? Por que um “obriga-me” seria mais “certo” do que um “me obriga”? Os africanos, trazidos à força para o Brasil, adoçaram o português. Transformaram o “está” em “tá” e o “dá-me” em “me dá”. Qual seria o problema? Não se começa uma frase com “me dá” ou com qualquer pronome assim. Por que mesmo? A única lei de uma língua é a eficácia. Precisa comunicar. Tem de dizer o que quer dizer. Não pode silenciar.
Os sistemas de hierarquia social utilizam cultura, educação, artes e línguas para classificar as pessoas entre os que sabem e os que não sabem certas coisas. É grave não saber quem foi Homero (embora não se saiba com certeza se ele existiu). Boa parte da humanidade, porém, vive sem tomar conhecimento de tão importantes saberes. Perde? Certamente. Pode ser feliz? Claro. Uma palavra interessante em português é personagem. Masculino ou feminino? Eu digo e escrevo “o” personagem. Não me aborreço, porém, quando aparece como mulher. No amor, como na língua, (quase) todas as fantasias são possíveis. Quem diz o que pode? Os parceiros. Os usuários. O resto é apropriação, distorção e ruído na comunicação. O que comunicar que dizer?
Possivelmente que o silêncio mata.