Simpatia quase antes do amor
Estávamos instalados quase no Posto 9.
Em família.
Ambiente tranquilo e caloroso.
Pouco menos de 35 graus.
A carteira de uma senhora foi roubada sem que ninguém visse e sem que ninguém tivesse saído do lugar.
Uma grande demonstração de sutileza.
Quase um passo de balé.
Trabalho profissional.
Eu continuava lendo Luis Buñuel. Estava na parte da Guerra Civil Espanhola em que as execuções predominavam.
Era tudo mais amador.
Foi aí que um cara, sarado e tatuado, aproximou-se de uma gata, sarada e tatuada, que vestia um biquíni branco mais alvo do que um véu imaculado, e disse quase sem ênfase na voz, mas o vento o traiu:
– Quero você.
Assim. Na bucha. Sem tirar nem pôr. Ela sorriu. Tenho certeza de que não se conheciam. Mas eram lindos.
– Só depende de você.
– É mesmo?
– Quando?
– Hoje.
– Onde?
– Aí é que está?
– Como assim?
– Vai precisar me achar quando o Simpatia é quase Amor passar em Ipanema. Vou estar lá. Vou esperar por você.
Literatura? Pode ser. No Brasil, a literatura é péssima. Tem um pessoal querendo fazer gênero “nova geração”. É uma mediocridade total, que vai de Marcelino Freire a Altair Martins. Pura afetação de oficina, onde se aprende a importância das frases estetizantes e de uma estética do nevoeiro. A quase velha geração, que vai de Cristóvão Tezza a Milton Hatoum, não é melhor. É pior. Chatice garantida com grandes ideais e alguma enrolação. Esse pessoal ganha prêmios. É um sistema de reprodução do mesmo. Eles se amam, eles se julgam, eles se condecoram. O mais patético é que acabam por acreditar nesse simulacro. Erguem o nariz e dizem-se “escritores”, Um é mais mala do que o outro. Um é mais bobo do que o outro.
O único que se salva é Marcelo Mirisola, que acaba de lançar “Memórias da sauna finlandesa”. Mirisola está para a nova geração assim com João Gilberto Noll está para a que a veio antes: tem algo a dizer e consegue dizer isso com certo estilo, com humor, com um bom nível de ironia. Parece que ele mesmo é tão chato quanto os outros, mas sua obra vai além, o que já é um alento. O resto é papo furado, conversa de sarau, papo de salão literário, histórias de escritores. Enfim, conversa fiada. Nessa lógica, sabemos, é decisivo fingir bem.
– Eu acharei você mesmo fantasiada de Madonna.
– Está frio.
– Lady Gaga?
– Por que não?
Que personagens fantásticos aqueles dois.
Com licença que está na hora: vamos correr que o Simpatia é quase Amor já está vindo. Até amanhã!