Juremir Machado da Silva

Sobre a mulher de 70 anos

Sobre a mulher de 70 anos

Escrevi no Correio do Povo uma coluna sobre as mulheres de 70 anos.
Na verdade, sobre as mulheres de mais de 40 anos.
Mulheres maduras, experientes, sensíveis, leitoras, maravilhosas.
Recebi muitos e-mails de marmanjos indignados ou despeitados.
Um me chamou de oportunista.
Disse que eu estava querendo adular as "balzaquianas".
Outro alegou que as mulheres buscam prazeres nas ruas por não saberem, como os homens, brincar com qaulquer coisa. Por exemplo, com uma bolinha.
A maioria me chamou de marqueteiro.
Eu adoro as mulheres de mais de 40 anos.
Gosto dos homens experientes.
Sempre tive grandes amigos mais velhos do que eu.
Décio Freitas, meu grande amigo, tinha quase 80 anos.
Tem gente que só gosta de mulher com peitinho e bunda durinhos.
Nada tenho contra. Nem de silicone.
Mas não é tudo.
Adoro mesmo mulheres que gostam de ler, de apreciar a forma de um texto e de buscar prazer.
Detesto gente que manda e-mail supostamente elogioso com frases assim: deve ser difícil encontrar assunto para uma coluna diária, mas hoje você se superou.
Quer dizer, é quase sempre ruim, mas hoje saiu bom.
Sei ler.
Não sou tão trouxa assim.
Um sujeito me mandou um e-mail assim: gostei da história do seu livro, da estória nem tanto.
Ou seja, gostou dos fatos, mas detestou a narrativa, o meu trabalho.
Tem direito. É a sua opinião.
Que posso fazer?
Como elogio, é uma excelente grosseria. Ou crítica.
Mulheres de mais de 40 anos raramente mandam e-mail desse tipo.
Ou dizem abertamente que não gostam ou fazem elogios claros.
Ou dizem que sou medíocre.
Ou dizem que sou muito bom.
Argumentam, percebem as sutilezas do texto, descobrem aquilo que me custou sangue, horas, buscas exaustivas: uma frase, uma nuança, um jogo de palavras, uma piada dissimulada.
As mulheres de mais de 40 anos são mais detalhistas e sutis.
Ou mais detalhistas e frontais.
Normalmente são mais inteligentes, hedonistas e autênticas.
Claro, existem as perversas que buscam feriam fazendo de conta que elogiam.
São as inimigas na trincheira.
Vida de colunista é assim.
Eu amo essa diálogo com as mulheres mais sensíveis, aquelas que sabem seduzir sem fazer de tudo um reles jogo de sedução.
Há colunistas para quem tudo se resume a comeu ou não comeu a fulana.
Eu gosto de prazeres mais sofisticados.
Sempre me choca esse culto demasiado da juventude.
Como se ter passado dos 40 anos fosse uma categoria de acusação.
Muitos homens me entendem e me admiram.
Digo isso sem narcisismo.
Mas são as mulheres de 40, 50, 60, 70, 80 anos (e até mais) que me descobrem inteiramente, revelam, provocam e dão prazer. Escrevo cada vez mais para elas. Sinto que nos entendemos.
Falamos a mesma língua.
Pouco me importa se comprarão ou não meus livros.
Eu me lixo para isso.
O que me interessa mesmo é a compreensão profunda do que eu escrevo.
Detesto leitores moralistas.
Gosto de leitores que apreciam valores.
Não odeio reacionários inteligentes.
Detesto é o reacionário rasteiro, nostálgico de um mundo inexistente, parado no tempo.
As mulheres de 70 anos parecem acima disso: querem a vida.
Um homem disse que costumo ser amargo com a vida.
Nenhuma mulher de 70 anos jamais me disse isso.
Sou feliz.
Sou daqueles que cantam "gracias à la vida..."
Daqueles que cantam "eu tenho fé é nessa rapaziada..."
Quem acha meus textos amargos nada entendeu.
Enfim, reafirmo meu amor pelas mulheres de 70 anos.
Elas são finas, agudas, envolventes, certeiras.
Elas são dez.