Juremir Machado da Silva

Sobre imigrantes e escravos: aberto o debate

Sobre imigrantes e escravos: aberto o debate


Boa tarde, Juremir. A tarde está muito linda mesmo.

Gostaria que não descartasses simplesmente o meu e-mail por ser longo. Acho que vai valer a pena ler.


Compreendo e compartilho a tua indignação em relação ao tratamento dado aos afro-descendentes. Mas o meu ponto de vista é um pouco diferente do teu quanto à motivação que leva as pessoas a ter essas atitudes negativas em relação a eles, e quanto ao que seria útil fazer para acabar com essa injustiça.


1) Vou citar um caso concreto, que não é único, representa a praxe vigente na época. Meu avô, quando veio da Itália em 1897, foi parar em uma fazenda de café em São Paulo, mais precisamente na fazenda da Sra. Veridiana Prado, grande dama da elite quatrocentona daquele estado. Ele, como os outros que vieram na ocasião, substituíram literalmente os escravos, inclusive moravam nas mesmas senzalas antes ocupadas por eles. Teoricamente eram trabalhadores livres, mas como dependiam do armazém local para a sua subsistência, mesmo limitando-se às despesas mínimas estavam sempre devendo para os patrões, pois o salário não cobria as necessidades básicas. Permanentemente em divida, não podiam nem pensar em deixar a fazenda, e os que eventualmente se arriscavam a fugir eram caçados pelo capitão de mato, aquele mesmo que antes caçava os escravos fugitivos. O que mudou, quando passaram a contratar trabalhadores livres no lugar dos escravos? Os imigrantes não eram açoitados, mesmo porque a relação que eles tinham com o trabalho era diferente da relação dos escravos com o trabalho, por razões culturais. (O debate sobre isso seria longo). Antes, o escravo ao menos era suficientemente alimentado, pois a morte dele era perda de patrimônio, depois, como empregados “livres”, se alguém morresse, não era problema do fazendeiro.


2) Vi há algum tempo um filme (documentário?) sobre imigração italiana, em especial sobre a travessia do oceano e a chegada na América. Era igual às notícias que temos sobre os navios negreiros, aqueles mesmos navios, aquela superlotação e aquela miséria, visão que coincide com documentos que chegaram até nós. E chegando na América, o critério para a seleção dos que podiam permanecer no país, entre outros itens, era semelhante ao que examinava os escravos na sua estrutura física. E se algum membro da família não correspondia às exigências deles, simplesmente era descartado e separado para voltar para a sua terra de origem, com os conflitos daí decorrentes, claro. Seria racismo?


3) Quando os imigrantes italianos chegaram aqui no Rio Grande do Sul, (falo só nos imigrantes italianos porque conheço bem a sua história, mas com os imigrantes alemães e de tantas outras etnias presentes no Rio Grande do Sul não deve ter sido diferente), as palavras “colono” e “gringo” tinham uma conotação parecida com a palavra “negro”. Era um insulto chamar alguém de gringo ou de colono, porque colono era aquele miserável que vivia no meio do mato, não sabia falar a língua do país, e não tinha um mínimo de condição de interagir com os seus predecessores na povoação do estado. É verdade que eles tiveram uma pequena ajuda do governo, mas se eles não tivessem arregaçado as mangas e não tivessem trabalhado duramente, assim como os seus descendentes continuam fazendo, não teriam a prosperidade que se vê na Zona da Colônia, estariam até hoje vivendo como quilombolas. Nunca foi proibido chamar alguém de gringo ou de colono, aos poucos os colonos e os seus descendentes mostraram que a palavra podia ter outra conotação. Hoje é motivo de orgulho ser neto de uma nona colona.


4) Já me aconteceu algumas vezes, como também num dia desses, ao abrir uma porta para eu passar, uma adolescente muito graciosa simplesmente passou como se eu estivesse ali em função de porteira, para abrir a porta pra ela. Se eu fosse afro-descendente, provavelmente me sentiria discriminada por essa razão, mas sou idosa e branca.


É racismo mesmo, ou um sentimento mais amplo de crueldade e egocentrismo generalizado na nossa sociedade?


Penso que, conhecida e analisada a situação, mais vale direcionar a nossa atenção para o valor dos que conseguem vencer as dificuldades, estimulando assim outros a segui-los, do que insistir nas dificuldades, no sofrimento, dando a falsa impressão de que é impossível reverter a situação, a não ser reconhecendo uma sua inferioridade, que de fato não existe. Essa insistência em justificar uma situação negativa passa a idéia de que os afro-descendentes seriam inferiores, o que, é claro, não são. Machado de Assis era descendente de escravos e tinha um pai bêbado, e foi Machado de Assis. Não digo que seja fácil. Machado foi uma pessoa fora de série, mas outros afro-descendentes também se destacaram. Assim como eles, nem todos os descendentes de europeus se destacam, só aqueles que realmente vão atrás de seus ideais, sem parar para se lamentar.


Obrigada pela atenção,

Lydia Theresa Miotto Gabellini