Juremir Machado da Silva

Sobre o julgamento dos Nardoni

Sobre o julgamento dos Nardoni

Caro Juremir, boa tarde!

Meu nome é Simone Tavaniello e sou fiel leitora de seu trabalho.
Encaminho um texto que escrevi hoje, trazendo uma discussão que acho relevante que seja pensada.

Um abraço,

Fome de quê?

É surpreendente assistir o movimento da população em determinadas situações da vida. Nesse caso do julgamento do casal Nardoni, então, confesso que entendo impossível não ficar perplexo. Desde o anúncio da data do inicio do júri popular, centenas de cidadãos enraivecidos começaram a se juntar em frente ao foro manifestando sua sede de justiça. Aparentemente, nenhum problema, não fosse o fato de que sequer se permitem cogitar uma hipótese contrária à tese foi lançada nos meios de comunicação. Imaginar algo diferente das obviedades é um tabu, como se fosse proibido pensar. Não estou defendendo a inocência do casal, longe disso, mas não consigo assimilar como um grupo tão grande de pessoas, e aparentemente desocupadas considerando o tempo em que estão dedicando suas próprias vidas nesse assunto, clama por uma justiça, sem sequer respeitar seu direito de opinião alheia. Estão unidas na tentativa de atacar um inimigo comum. E na sua força, sequer permitem o trabalho de defesa do advogado do casal que, talvez ainda não tenham se dado conta, não estava no apartamento do dia em que Isabela foi jogada! Isso é o que me impressiona. No terceiro dia de julgamento, assisti o advogado de defesa sendo agredido com pontapés na saída do foro. Naquela mesma manhã, ingressou no foro sob um coro aclamado que, em vaias, o intitulava “mercenário”, pelo simples fato de ter aceitado um trabalho que decorre de sua profissão. Então, o defensor, que apenas está no exercício legal de seu trabalho, o que, aliás, acabaria sendo feito por qualquer outro advogado, por força de lei, apesar dos cidadãos aparentemente desconhecerem o direito à defesa presente em nossa Constituição Federal, injustamente foi colocado no time dos “maus”, como se estivesse praticado o crime junto com os assassinos! Será que ninguém do “grande grupo que luta por justiça”, por algum minuto, pensou a injustiça que estava cometendo com um profissional que estava trabalhando? Não acham injusto agredir um trabalhador que estava chegando em seu local de trabalho? Aparentemente, não. A sentença popular já foi feita, antes mesmo do final do Júri. Qualquer que seja a decisão dos jurados, culpados ou inocentes, o fato é que os Nardoni, e agora seu defensor, serão sempre os que devem ser punidos. Similar ao caso da estudante Geisy. De repente, um cidadão qualquer entendeu que ela não estava vestida adequadamente para freqüentar sua universidade então aclamou uma massa de “justiceiros” que, da mesma forma, gritou, sentenciando a estudante, ofendendo de forma clara seu direito de escolher a roupa que quer usar. Novamente reitero: não estou defendendo nada, nem atribuindo culpados, muito menos tenho certeza de quem está com a razão, apenas penso que tais atitudes “enraivecidas”, “plenamente convictas” e “absolutamente convencidas de razão”, nunca foram legitimas. São ditadoras. Parece uma volta a Idade Média. – Olhem povo, essa mulher é uma bruxa por isso deve ser queimada viva! Então esse povo, matando sua sede de justiça (???), e sem permitir qualquer direito de defesa, assistia o espetáculo da morte cruel de um ser humano e depois voltava para a rotina de suas vidas e, em suas casas, saboreavam o doce sabor da vingança. A pergunta que faço é: esse povo está com fome de quê????? O que faz centenas de pessoas mudarem suas rotinas para lutar por uma causa comum apenas quando ela enseja em vingança? E de onde sai essa convicção certeira, que sequer se permite cogitar o contraditório? Não consigo entender que vingança seja um sentimento que mereça tanta dedicação! Qual o motivo dessas centenas de pessoas, aparentemente com tempo sobrando, não se juntarem para algo mais útil para o planeta? Combate a fome ou ao tráfico de drogas que mata tantas Isabelas, Carolinas, Danielas por ano? Pra isso, o aclamado povo segue apático, afinal, esse show não está sendo transmitido na televisão! Essa nova geração, virtual e informatizada, se nega de pensar. Tem preguiça de pensar. E, também não vê motivo para isso, afinal, pode, simplesmente, “recortar/colar” e assim ter uma posição “própria” sobre todos os assuntos em discussão, sem perder seu precioso tempo. A realidade que o julgamento dos Nardoni me mostra é bastante preocupante. O povo está com fome de vingança! Cada um ali, manipulado por um pré-julgamento que não deve ser discutido, tem raiva, tem ódio. Esse povo, aparentemente ilibado e perfeito, está unido pelo ódio, seja ele decorrente de suas frustrações pessoais, das dificuldades financeiras do país, da crise de desemprego, enfim... Então eu, cometendo um crime e enfrentando tabus, tenho a “audácia” em tentar pensar o contrário daquilo que me está sendo imposto e..... viro a bruxa!!! Prefiro assim. Continuo acreditando que é bem melhor ser queimada viva pelo povo com fome de vingança, do que aceitar a proibição do direito de pensamento.