Juremir Machado da Silva

Sobre o livro racista publicado pelo patrono da Feira

Um leitor me envia a carta que recebeu do presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro e a carta que escreveu em resposta.

"Caro Alfredo Aquino:

Lamentamos profundamente não contar, na 60ª Feira do Livro de Porto Alegre, com a participação de nosso escritor e patronável Aldyr Schlee em palestras, apresentações, homenagens e lançamentos de livros já programados. Respeitamos sua posição e informamos que, pelo grande apreço e consideração de que Schlee é merecedor, manteremos a reserva de data e de espaço contando ainda com a possibilidade de realização de homenagem merecida que vem sendo trabalhada com carinho pela Câmara do Livro e parceiros.

Sobre a eleição do patrono da 60ª Feira do Livro de Porto Alegre, relembramos que Airton Ortiz vem participando da Feira do Livro como jornalista, livreiro, editor, organizador e, nos últimos 16, como escritor, lançando um livro por ano. Toda a sua vida profissional está ligada à Praça da Alfândega.

Ele criou e administrou a Editora Tchê! durante 15 anos, período em que lançou centenas de autores, entre eles Carlos Urbim e Luiz Coronel, que se tornaram patronos da feira. E muitos outros que ainda poderão sê-lo.

Publicou cerca de mil títulos e a editora comercializou em torno de 5 milhões de livros em todo o Brasil, defendendo a pluralidade ideológica, filosófica, religiosa, cultural, étnica. Ele editou Antônio Brito e Olívio Dutra. Publicou Barbosa Lessa, criador do tradicionalismo, e Tao Golin, um dos seus maiores críticos. Publicou Ayn Rand, inspiradora do neoliberalismo, e Otto Alcides Ohlweiler, importante pensador marxista gaúcho. Lançou as biografias de Leonel Brizola e Luiz Carlos Prestes. Em 1985, isso era um grande desafio. E publicou mais, muito mais.

Quando lhe caiu nas mãos um texto chamado Brasil Sempre, escrito pelo sargento Marco Pollo Giordani, um ex-agente do DOI-Codi, ele sabia que seria um tema polêmico e que correria riscos em lançar o tal livro, e eles viriam de três fontes bem específicas: As Forças Armadas, os fascistas (que gostam de censurar livros) e algum pretenso crítico que poderia pinçar alguns parágrafos do livro e divulgá-los de forma descontextualizada. Se o livro fosse conivente com a ditadura o autor não teria sido preso. Porque ser conivente com a ditadura seria esconder os fatos.

Os fascistas tentaram intimidar a editora para que ela recolhesse o livro. Crítica, na verdade, está surgindo agora, quando a descontextualização histórica de tal edição induz a um julgamento equivocado. E muitos têm criticado um livro que não leram.

A Feira do Livro de Porto Alegre é a mais importante instituição cultural do Rio Grande do Sul. Seu patrono, cargo simbólico ocupado a cada ano por um escritor, a personifica. Airton Ortiz foi indicado pelos livreiros - de forma espontânea -, por dez vezes, pois ele sempre colocou o seu nome a disposição de qualquer iniciativa que tenha por objetivo promover a leitura, e por seu trabalho democrático.

Importante lembrar que o processo de escolha do patrono passa por duas etapas. Na primeira delas, as empresas associadas à Câmara, os patronos de feiras anteriores e ex-presidentes da entidade indicam os autores que irão concorrer ao título de patrono. Passado esse período e com os nomes conhecidos, a votação passa para um segundo momento, em que os associados, diretoria da CRL, patronos e representantes da comunidade cultural (reitores de universidades, diretores de faculdades, titulares de entidades culturais e sociais envolvidas com a questão do livro, todas sediadas no Estado, e parceiros especiais da Feira) elegem um entre os patronáveis.

Nesta ano, mais uma vez a Câmara do Livro disponibilizou urnas para que os votantes pudessem dividir seus votos com outras pessoas em seus nichos de atuação. Ou seja, todo o processo de escolha do patrono é legitimamente democrático. O que muito nos orgulha.

O posicionamento da Câmara do Livro é de rechaço veementemente a qualquer atitude racista, discriminatória ou antidemocrática. Não vemos na obra de Ortiz ou nas intenções de suas edições tal viés.

Acreditamos que a intenção primordial de cada editor deva ser a de informar, permitir que leitores tenham elementos suficientes para formar seu próprio posicionamento. Como bem sabemos, também é este o posicionamento da Ardotempo. Concordamos: quem lê, sabe!

Esperamos ter esclarecido os fatos e nos colocamos à disposição para qualquer novo esclarecimento que se faça necessário.

Marco Cena -Presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro."

*

Caro Presidente Marco Cena
Saudação e bom dia.
Recebi sua carta e a li cuidadosamente, palavra por palavra.

Fiquei surpreso com a defesa fervorosa e irrestrita da Câmara Riograndense do Livro ao Patrono escolhido e, em especial ao livro publicado pelo editor Airton Ortiz, como um ato intensamente democrático. Creio que deveria ter sido um pouco mais recatada esta defesa. Outros patronáveis quiçá pudessem contemplar critérios de qualidade literária e honorabilidade pública dentro dos critérios exigidos pela Câmara Riograndense do Livro, mas a Câmara e seus pares consideraram que o patrono escolhido os tinha em nível superior. Enfim...

É a escolha pétrea da Câmara Riograndense do Livro.

Sigo sua advertência em ler o livro antes de criticá-lo. Sem dúvida, o Sr. tem toda a razão. O Sr. certamente o fez para defendê-lo com tanto rigor e de forma tão escorreita, como um libelo contra a tortura, contra a ditadura e sem que nele exista qualquer menção de racismo. Espero que seja assim, de fato. Eu consegui um exemplar do livro que buscarei hoje e o lerei no final de semana antes de voltar a comentar a respeito. Espero encontrar ali os motivos para sua defesa tão enfática ao ato de publicação do editor Airton Ortiz.

"Atos de tortura ou a sua negação são crimes contra a Humanidade, que não preescrevem nunca".

Atenciosamente,

Alfredo Aquino

edições ardotempo


*

Lidas as duas cartas, faço meu comentário.

Eu li o livro de Marco Pollo Giordani.

Duas vezes.

É uma defesa fervorosa do regime militar, do SNI e uma justificação dos  torturadores.

E tem passagens de um racismo extremo. O racismo e a tortura continuam o mesmo. Não há como descontextualizá-lo.

Quase sempre que alguém fala em descontextualização, está enrolando ou tentando justificar o injustificável.

Explicou, dançou.

O editor deveria ter recusado, mas certamente queria ganhar dinheiro e não se preocupou com isso. Ou não leu?

Não avalio intenções. Não tenho como alcançá-las.

Avalio textos e fatos. Repito alguns deles.

"Brasil sempre" tem um capítulo sobre os brasileiros. O conteúdo é escancaradamente racista. Giordani escreve assim no livro: "Penso que o negro, o índio e o mestiço, com esporádicas exceções – e lhes destacando as virtudes afetivas – são castas de rendimentos inferiores. Não quero entrar no campo discriminatório. Meu raciocínio são emanações da realidade".

Não satisfeito com essa afirmação, que o editor não se constrangeu em publicar, o autor diz mais: "Quando contemplo famílias inteiras de brasileiros – mais precisamente os chamados "pelos-duros" – buscarem alimentos nos lixos das cidades, amontoarem-se pelas margens fétidas de canais de esgotos ou debaixo de pontes, inicialmente não penso num abandono público, mas baseado na luta que tive para vencer na vida, estou convencido da existência de uma escala axiológica hierarquizando padrões raciais".

Dissertando sobre os nordestinos brasileiros, o autor indaga: "Interessa a quem, pergunto, essa multidão de crianças atrofiadas, com irreversíveis sequelas cerebrais?". Uma linha antes, falando sobre a pujança japonesa, assegura: "Evidentemente, é um problema racial, educacional e filosófico – eis os três requisitos para a formação de uma elite".

No papel de planejador do futuro, Giordani aconselha: "Urge, imprescindivelmente, a busca de dois caminhos indesviáveis: um rigoroso controle de natalidade – fundamentalmente nas regiões mais pobres e periféricas dos grandes centros – para que possamos, a longo prazo, obter uma raça mais qualificada..."

O resto é uma ode ao aparelho repressivo da ditadura.