Sobre o nome de Porto Alegre (2)
Até mesmo os casais que primeiro chegaram ao Rio Grande, vieram por engano. Melhor, por precipitação. Mais ainda, por bajulação. Depois do Tratado de Madri, de 1750, o governo metropolitano resolveu povoar o sul do Brasil e ordenou ao governador de Santa Catarina, Manoel Escudeiro de Souza, que enviasse para Viamão parte dos casais que não tardariam a desembarcar dos Açores. O puxa-saco Escudeiro resolveu se adiantar e exportou para cá, em abril de 1751, uma leva de casais já assentados, desterrando-os de Desterro. Todo contente, Escudeiro escreveu ao rei para anunciar sua façanha. O monarca ficou tiririca. E tinha razão. Os desterrados, insatisfeitos, espalharam-se pelo interior da província. Só com a leva seguinte, dos recém-chegados ao Brasil, é que a implantação funcionou. Como se vê, algumas das nossas mais resistentes características, mesclando “garra”, generosidade, hipocrisia, esperteza e malícia parecem já estar aí nesses momentos fundadores: retranca, jeitinho, promoção e bajulação.
Spalding, sem má intenção, deu margem para teorias chauvinistas gaudérias ao dizer que o contrato estabelecido pela Coroa com Feliciano Oldenberg impunha a remessa de “gente apta para o trabalho” (1967, p. 30), gente moça, sadia, forte. Santa Catarina, porém, recebera velhos, enfermos e aleijados. Porto Alegre, em contrapartida, teria sido brindada com “famílias escolhidas”. Hum... Escudeiro seria o primeiro “Manezinho”, mandando os melhores para cá e ficando com os piores por lá. Até que Guga veio desmentir essa teoria racista por descuido e obviedade: gostamos de puxar a brasa para o nosso churrasco.
A história popular é feita de maravilhosas falsas interpretações. Há quem jure que na Praia de Belas, num passado mítico não muito distante, em torno da época da chegada dos casais povoadores, viviam deusas extraordinárias, açorianas líndissimas que caminhavam até o rio, rasgando as roupas de tanta saudade de um Oceano longínquo. Daí, obviamente, teria vindo o nome Praia das Belas, depois Praia de Belas. A expressão, contudo, só apareceu no século XIX e por causa de um barbado: Antônio Rodrigues de Belas, dono de uma linda chácara no lugar. A verdade é que as belas só chegaram com o Shopping.
O próprio amor por Porto Alegre exigiu um certo empurrão no começo. Quando José Marcelino de Figueiredo transferiu a capital de Viamão para Porto Alegre os vereadores fizeram-se de desentendidos e não se mudaram, ignorando a convocação do governador. Passado um mês, Figueiredo, bom malandro, mandou-se chamá-los com urgência, deu-lhes um chá de banco e recebeu-os à noite, no palácio, cujo portão era fechado depois das 22 horas. Gentil e democrático, José Marcelino deu-lhes a possibilidade de escolha: “Mandei chamá-los para saber se querem ou não mudar-se para esta nova capital. E se não quiserem, desde já deixo-os presos até que se resolvam a atender minhas ordem” (Figueiredo apud Spalding, 1967, p. 59).
Todos, de bom grado, aceitaram. Porto Alegre, então, pôde contar com uma Câmara de vereadores leais e dedicados à capital. Tanto é assim que o Vice-Rei, Marquês de Lavradio, elogiou o despreendimento dos nossos primeiros políticos: “Louvo a obediência com que prontamente executaram a ordem que lhes dirigiu o Governador desse continente mudando a residência da Câmara para a nova Vila de Nossa Senhora Madre de Deus” (Apud Spalding, 1967, p. 59). Os edis ficaram comovidos com o reconhecimento das altas autoridades. E continuaram obedientes e solícitos.
O nome Nossa Senhora Madre de Deus, da preferência do beneditino Dom Antônio do Desterro, que assinou a autorização de criação da Freguesia de Nossa Senhora Madre de Deus de Porto Alegre, não pegou, talvez por ser comprido demais. De qualquer maneira, era a soma de duas paixões pessoais, a do religioso por Maria, embora neste caso seja uma paixão de toda uma ordem, e a de Figueiredo pelas glórias da sua terra. Outra vez, as péssimas línguas insinuam que Figueiredo fora apaixonado por uma bela alentejana de Portalegre, talvez o motivo de sua briga com o inglês que teve de apagar. Porto Alegre, em resumo, seria o resultado de uma paixão mal resolvida.
É dessa evolução histórica linear e coerente que surgem os três tipos característicos da Porto Alegre atual: os porto-alegrenses “de dentro”; os “de fora”; e os “de cima do muro”. Os “de dentro”, nascido em Porto Alegre, praticam um amor comedido e sem grandes arrancos ou declarações. Os “de fora”, vindos, principalmente, do Interior, são vítimas da lógica da paixão, dividindo-se entre o amor doentio e o ódio quase nunca justificado. Os “de cima do muro” são muito chatos e tentam encontrar equilíbrio onde só tem sentido a divisão e a oposição binária. Porto Alegre é como a dança da chula: um duro equilíbrio de pernas antagônicas e complementares.
De tanto brigarmos contra os “hermanos” pelas nossas fronteiras, adquirimos o hábito da relação antropológica fundamental dentro/fora. Depois que as culturas do Prata deixaram de ser importantes para nós e que viramos às costas ao Pampa, elegemos o Brasil — de resto, os farroupilhas já tinham feito o mesmo — como o novo pólo do “fora”. Passamos nosso tempo medindo nossas forças com os de “fora”. Oscilamos entre o megalomania e o complexo de inferioridade. Ora somos muito superiores a todos os de “fora”, ora vibramos por ser reconhecidos pelos de “fora”, ora uivamos de raiva por causa do desprezo dos de “fora”. Os “de cima de muro” têm os seus momentos de síntese gloriosa e afirmam que Porto Alegre é o caso universal mais eloqüente de província cosmopolita: os “de fora” podem tornar-se totalmente “de dentro”.
Uma prova disso seria José Montaury, um dos mais longevos administradores de Porto Alegre. Nascido em Niterói, positivista de carteirinha, Montaury governou a capital gaúcha durante 27 anos, até que a Revolução de 1923 acabou com as reeleições. Ao deixar o posto, Montaury levava nos bolsos 400 mil réis, o salário do mês nada mais. Vem de longe a mania gaúcha de fazer política com honestidade. Mesmo quando se trata de um “de fora”, predomina a ética dos “de dentro”. Montaury tinha lá suas posturas bizarras, conforme relata Walter Spalding: nunca teve dinheiro em banco, ficou solteirão e gastava o pouco que ganhava com menores abandonados. Hoje, certamente, recusaria cartão de crédito e cheque especial.
Montaury atuava no estilo cauteloso que se tornaria a marca gaúcha, até em futebol, depois de passada a moda das “gravatas coloradas”. Era um estilo Celso Roth, sem arroubos, sem grandes obras, sem endividamentos, com muitos volantes e poucas jogadas pelas extremas. De certa forma, o Partidos dos Trabalhadores, com sua política ortodoxa de só gastar o que arrecada, não se afastou muito desse primado positivista do equilíbrio das contas. Nosso lema parece mesmo ser: o melhor ataque é a defesa.