Juremir Machado da Silva

Sobre o tcheismo e outras considerações

Sobre o tcheismo e outras considerações

Juremir,

Meu pai é nascido em S Vicente do Sul, à época em que esta era distrito da Mata. O pai dele, meu avô, era lavourista, pecuarista e dono de açougues.
Meu pai refere sua juventude entre a cidade e o campo. No campo, o leite das “tetas”de dezenas de vacas e a palmatória do professor do Grupo Escolar. Na cidade, diariamente, à cavalo, a entrega de leite para o posto de saúde, os carnavais do clube dos brancos e as raias dos prados. Só na torcida.
“...e se vieram os castelhanos....”
Ainda não peguei o fio dessa controvérsia, mas já percebi a briga que o amigo arrumou.
Acabei de ler “Getúlio”, e fiquei pasmo. No mesmo século XX, especialmente na metade dele, centenas de bandidos do Rio Grande buscaram refúgio no Sul/Sudoeste e Oeste Paranaense. A tal gente da “faca na bota “ e de coldres avantajados.
Descendemos de judeus portugueses e espanhóis, e nunca a lida campeira obrigou a qualquer um de meus tios a demonstrar a valentia “na bala “.
Veja que estou misturando dois assuntos. A repetida morte de personalidades de POA, e a questão “gaudéria” dos cavalos e das cavalgadas.
Paradoxalmente, o Estado mais politizado do Brasil é o mais atrasado nos avanços humanos.
Isso não é um paradigma. Isso que acontece aí é uma neurose coletiva. E pessoas como você, precisam e devem continuar a combater a “valentia” que mancha a história do Rio Grande e a etiqueta da hospitalidade que encanta o país todo.
Leio muito Dostoievski. Os pseudo-intelectuais do final do século XIX antevêem o socialismo no contraponto da falsa liberdade francesa, mas acabam, ao menos eles, preservando uma Rússia crente em Deus, ensimesmada e soberba, mas humanamente decadente. Entre esse tempo e aquele do advento do comunismo, estes morreram na inanição de seus ideais, quando não nas prisões da Sibéria.
Adiante, Rio Grande.
Os cavalos em seu lugar, e os homens a pensar.
Aqui no Paraná, somos invadidos por essas bandinhas, tchê isso, tchê aquilo.....Como é bonito se ouvir uma cantoria de Teixeirinha, ou o Tango do Meretrício, do Joao de Almeida Neto. Eu, pessoalmente, detesto a música gaúcha, aquela de gaita “rasgada”, enjoativa. Meu pai fica tão entristecido, que só lembra das “típicas”de bandóneon da Rua da Praia, em POA.
Bem..., acabo aqui. Muito a dizer, mas o terreno é vosso.
Se aí, o homem é medido pela espessura de couro de sua bota, pela possibilidade de suportar a hipertensão, e pelo coldre que carrega, encho mais ainda a minha alma de tristeza.
Há muito que se falar do seu Rio Grande, do Rio Grande de meu pai. Mas fico a esperar que o “tcheísmo” barato que invadiu as cidades maiores daí se dissolva por uma onda de cultura....A cultura do pensar, como daqueles que veneravam o Czar, mas que desejavam uma Rússia progressista e moderna.
Prezado Juremir. Finalizo com esta frase tão conhecida:
Às espadas, as palavras !


Teobaldo Mesquita