Juremir Machado da Silva

Solidão e existencialismo na Trilogia de Palomas

Solidão e existencialismo na Trilogia de Palomas

Havia muitas mulheres bonitas no enterro de minha mãe.
Quase todas as namoradas que tive entre 1980 e 199O foram ao cemitério naquela tarde morna de outubro.
Olhei-as com estranheza. Estavam felizes com a oportunidade encontrada para ainda manifestar algum sentimento por mim. Comparei-as.
Admirei os seios de uma.
Deliciei-me com a bunda de outra.
Mordi em pensamento os lábios carnudos da mais bela. Esqueci os nomes. Confundi algumas.
Depois, envergonhado de estar contente, chorei algumas lágrimas ásperas como a poeira daquela primavera banal.
Lembrei-me do rosto de garagista de Albert Camus e de que começara o seu livro mais célebre com uma frase sobre a morte de sua mãe. Mandei a literatura tomar no cu, apesar da impropriedade da expressão naquele ambiente de recolhimento, e parti, sem o saber, em viagem rumo ao extremo sul da solidão.
Ao vislumbrar os últimos túmulos, vieram-me à cabeça imagens da infância. Nas frias manhãs ensolaradas de julho, eu me empoleirava no alto de uma bergamoteira e, perdido entre o verde duro das folhas da árvore e o alaranjado risonho das frutas, espiava o horizonte com a fome de um moleque travesso.
As ruas espiralavam-se e pareciam fios marrons contorcendo-se preguiçosamente.
Naqueles dias silenciosos e doces, banhados pela música suave do vento que soprava entre os eucaliptos, aprendi a amar o ilusório. Nunca mais voltei à realidade. Comecei a ver o mundo com olhos de anjo da perdição. Mamãe sofria com o meu retraimento. Não tanto. Instável, eu podia passar semanas de satanás. Torturava animais. Jogar gato de telhado com as patas amarradas era o que mais me divertia. Ao longe, o cemitério do vilarejo espreitava-me com o cheiro da morte e a força da maldição. Imortal, como todas as crianças endiabradas, nada me intimidava.
Resolvi que viveria para o mal. Agora, passados tantos anos, creio que fracassei.
Outro dia, rabisquei o título para um romance que jamais escreverei: «Memórias Precoces de um Homem Comum».
Não sou escritor. Mamãe até que amava os livros e teria adorado ver o meu nome na capa de um volume encorpado. Estive sempre demasiado ocupado com a inutilidade da existência e não pude gastar as horas de marasmo com histórias alheias ao sublime, o qual, de resto, empenhado em manter-me ereto, desconheci.
Talvez fosse a brisa dos fins de tarde. Mentiria se jurasse que sim.
Ao passar o portão do cemitério, virei-me e percebi o corpo esguio de uma das namoradas que mais amei.
Mentira. Gostava de trepar com ela.
Não, não sou um conquistador terrível nem um homem fatal. Tampouco um mitômano.
Soube apenas conversar com as mulheres ao longo de noites tediosas, sem nada prometer ou pedir, e entreguei-me a elas com a leveza dos condenados à errância sem fim.
Descobri que o meu jeito marginal, involuntário, encantava as fêmeas em busca de aventuras. Normal, pois entre nós as cobranças inexistiam e nem o prazer era garantido, embora nos surpreendesse em quartos mofados, em camas emprestadas, em motéis bregas ou em bancos de carros fora de moda.
Amantes perdidas sugavam o meu silêncio, contavam as palavras cortadas que emitia para roçar a mansidão dos domingos e inquietavam-se com a ausência de lamentações. Vazio, não fui atingido pela tristeza.
Sem ilusões, cedo abandonei a retórica enfadonha das justificativas.
Cínico, não me tornei concorrente de ninguém nem cultivei objetivos para legitimar a temporada no purgatório. Continuo assim: volúvel e livre. Por vezes, raríssimas, a melancolia atravessa os meus olhos castanhos esverdeados e escorre pelo rosto, marcando o canto da boca com um sulco, uma sombra aparentemente destituída de história.
Gosto dessa primeira imagem que construí de mim.
Não é a única.
(A Trilogia de Palomas está a dez reais o exemplar, que pode ser comprado separadamente, no balaio da Sulina na Feira do Livro de Porto Alegre)