Juremir Machado da Silva

Somos racistas

Somos racistas


Faz algum tempo uma pesquisa do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) trouxe velhos dados sempre novos: os 10% mais ricos concentram 74,5% da riqueza brasileira (no século XVIII, no Rio de Janeiro, os 10% mais ricos detinham apenas 68% do patrimônio). Já os 10% mais pobres pagam 44,5% mais impostos do que os 10% mais ricos. Não é maravilhoso? Não é criativo e genial? Segundo Márcio Pochmann, presidente do IPEA, a carga tributária líquida brasileira não passa de 12% do PIB. Ele não tem dúvidas de que para endireitar o Brasil é preciso fazer os ricos pagarem mais impostos. É uma sina. Eu compro brigas alheias. Não sou negro nem estou entre os 10% mais pobres. Mas tenho me atolado na discussão sobre cotas e desigualdade. Nas últimas semanas, recebi dezenas de e-mails de apoio aos meus argumentos e alguns contra. Encontrei excelentes elementos de reflexão. É uma pena. Isso me arranca das delícias da ironia e me obriga a gastar meus poucos neurônios com assuntos sérios.
Cada época inventa parâmetros para julgar e hierarquizar os indivíduos. O julgamento pelo mérito foi arduamente defendido, por exemplo, pelos iluministas, que se inscreveram numa longa luta, embora descontínua, contra privilégios de raça, sangue e religião. Voltaire, no combate à intolerância religiosa, consagrou um bordão: “Esmagai o infame”. O mérito, portanto, impunha um sistema de hierarquia social capaz de valorizar as capacidades individuais independentemente de “pré-conceitos” ou de categorias extrínsecas às habilidades de cada um num confronto de competências. Foi um avanço enorme. O problema é que o mundo da vida é feito também de paradoxos. Um leitor me enviou uma primeira crítica destacando que, se eu for levado a sério, racistas passariam a ser todos os que se opõem a cotas raciais, e anti-racistas seriam os que defendem cotas raciais.
Eu me permitirei uma resposta paradoxal: as cotas “raciais” não são raciais. Na verdade, são políticas voltadas para a eliminação de discriminação residual, persistente ou renovada. Não se quer criar diferenças sociais por critérios raciais, mas justamente diminuir ou apagar aquilo que existe na prática e volta a ser revelado pelo IPEA em termos globais: alta concentração de renda falseia a possibilidade de aferição pelo mérito. Basta repetir que apenas 2% de não-brancos chegam às universidades brasileiras. Tem razão outro leitor que alerta para um possível efeito perverso do remédio pelo qual a solução aguçaria o problema. Minha orelha foi puxada por desqualificar oponentes com termos como hipocrisia e má-fé. O contrário também ocorre. Os pró-cotas são chamados de fanáticos, cretinos e radicais.
Há leitores que se espantam com a afirmação de que para a antropologia moderna raça não é um conceito pertinente por não existirem atributos cognitivos ou desempenhos intelectuais específicos para diferentes cores de pele. Assim como não existem diferenciações operacionais em função da cor dos olhos. Crítico do suposto “racismo” das cotas o leitor citado antes tem outra opinião: “Talvez seja hora de considerar a possibilidade de que os afrodescendentes sejam sim, em média, menos disciplinados que outras raças (assim como parece patente que sejam superiores fisicamente que a média dos indivíduos brancos). Isso explicaria perfeitamente o porquê deles ocuparem tão poucos cargos de chefia, ou ganharem menos que seus pares brancos”. Cada um é livre para julgar essa hipótese.