Juremir Machado da Silva

Sonhos e pesadelos de Michel

Quando Michel enlouqueceu, pôs-se no palácio a sonhar: viu uma lua no Planalto, viu outra lua no asfalto. No delírio em que se meteu, queria subir ao céu, mas não queria perder os sapatos da suposta lealdade política. Sonhava com o paraíso, no qual seria rei e senhor, inventava fórmulas para não parecer traidor. Queria as benesses do poder e os aplausos da massa. No desvario seu, Michel pôs-se a cantar em voz de falsete: estava perto do Planalto, estava longe do asfalto.

No pesadelo que lhe acometeu, Michel via-se no cume e ao mesmo tempo no gume de uma faca amolada. Via o cavalo passar encilhado e não podia se dar por impedido de conspirar. Na fantasia em que se afundou, via uma lua no céu, via outra lua na cabeça do réu que poderia se tornar. Então começou a ouvir vozes que lhe diziam com marota sabedoria: não se pode ter tudo na vida, escolha entre o céu e o asfalto, entre a planície e o Planalto, entre o mercado e a feira, entre a grande mídia e a esteira dos que sempre veem o bonde passar.

Sem escolha, Michel escolheu assim mesmo: seu corpo subiu ao Planalto, sua alma desceu ao asfalto, onde jaz sem choro nem vela, nem sequer uma fita amarela para lhe ornar a biografia conspurcada pelo súbito êxito da conspiração ou do golpe (de sorte) que lhe aconteceu. Na alucinação em que se pendeu, Michel pedia generosas asas para decolar rumo ao infinito de onde daria o grito que trazia na garganta de vice. Queria a lua do céu, fugia da lua do réu. Só que para ganhar seu motor alado, precisava de aliados e dispunha apenas dos que já eram seus, todos popularmente condenados por algum rastro do passado.

Quando Michel enlouqueceu, achava que estava coberto de razão contra a insanidade da situação, da qual fazia parte, essa a sua arte, parecer oposição. Convenceu-se de que combatia a corrupção. Sentia-se paladino de uma cruzada moral que antes não lhe interessava. Com sua incrível tropa de choque, partiu ao ataque do firmamento. Ora era um Quixote ora era o archote iluminando um novo tempo. Se o chamassem de louco, talvez dissesse que louco é quem diz que não é feliz. Quanto mais via a lua no céu, mais temia o halo do réu e mais sonhava com a lua do asfalto, essa lua rebelde e volumosa que jamais lhe sorriu.

Há dias em que, vagando no Jaburu, à espera de um solitário visitante noturno fora da agenda, ora eufórico ora jururu, Michel faz o balanço do seu destino e roça o desatino: as asas que a ocasião lhe deu ruflam de par em par, seus sonhos se enterram no Planalto, seus pesadelos correm no asfalto. Acossado pelos muitos inimigos e pelos devaneios que lhe tiram o ar, ele se põe solenemente a discursar. Só lhe resta ler Alphonsus de Guimarães para espairecer. Ocorre-lhe de se perguntar com voz embargada (é melhor a voz do que os bens): ser-lhe-á o povo do seu país um dia reconhecido? As vozes esganiçadas respondem-lhe em coro duro: não. Está, enfim, perto do céu, soberano do Planalto, de onde comanda reformas vastas e cruéis como o mundo. Está assim, nada mais do que isso no fundo, cada vez mais longe do asfalto. Mas que lhe importa o asfalto se o mercado lhe aplaude, ampara e sustenta?