Juremir Machado da Silva

Sorte, azar, ano novo

Sorte, azar, ano novo

Ao azar da sorte
Cada um com as suas manias.
Não jogo no bicho, não aposto na mega-sena, não entro em rifa, não faço fé em jogo de azar, não arrisco a sorte numa fezinha qualquer, não atiro um gole no chão para o santo, não acendo vela para o Internacional ganhar.
Mas, calma, gosto muito de mulher. Da minha, claro.
Cada louco com o seu destino: não gostaria de ficar rico pelo atalho. Já me aconteceu de acordar molhado de suor por causa de um pesadelo: eu ganhava milhões na loteria, ficava rico de doer e não precisava mais trabalhar.
Tinha dinheiro para tudo, nada me custava, tempo livre em demasia e falta de ocupação. Que horror!
Eu queria ganhar muito dinheiro trabalhando. Sou um caso de internação imediata. Entendo a obsessão de milhões de brasileiros pela mega-sena. Não tendo outro saída, o jeito é arriscar no improvável para esquecer o muito provável. A mega-sena é uma vacina ineficaz do futuro contra o presente. No fundo, isso me dá aquela sensação de que é um atestado de fracasso de uma nação. Quando o país não garante a expectativa de ascensão social pelo trabalho, resta jogar na loteria. Os números de apostas da mega-sena são para mim uma prova de que o Brasil continua maltratando a sua gente. Não contribuo. Resisto solitário.
Tem aqueles que ganham a vida razoavelmente, mas, ainda assim, sonham com os milhões da mega-sena.
Não gostam do que fazem ou, mesmo fazendo com certo gosto, repetem gestos mecânicos enquanto sonham com a liberdade, praia, sol, viagens, mulheres, homens e muita festa. O cara que joga na loteria para mim avisa que não leva fé em mais nada nem em si mesmo. Fico desconfiado. Acho que o sujeito, na primeira que der, vai sair pela tangente, deixar cair a peteca, pegar o desvio e o boné e abandonar o barco. Sou como aquela música quase brega, eu “tenho fé é na rapaziada que não foge da luta e enfrenta o leão”
Que mais o tipo poderia fazer? Atolado na falta de perspectiva, sonha com a alforria. A mega-sena é um sintoma, o sinal de que nos sentimos escravos, presos a atividades que não proporcionam prazer, obrigados a vender trabalho por migalhas, órfãos de sociedades que não se preocupam mais em prometer o paraíso na terra. Sempre penso que os jornais deviam publicar manchetes diárias de capa assim: A Miséria Continua. Nada! A mídia fecha os olhos para as favelas, banalizadas, e divulga o inusitado: Favelado Ganha na Mega-Sena. Fico aborrecido.
Imagino uma sociedade em que ninguém, mesmo não sendo rico, veria razão para jogar em loterias. Imagino uma nação em que cada um se sentiria feliz exercendo a sua profissão e não gostaria de perdê-la por dinheiro algum. Cada vez que alguém confere os números da mega-sena na minha frente, soltando o tradicional “não foi desta vez”, eu sou tomado de uma estranha melancolia. Uma voz dentro de mim sussurra: “Pobre dessa pessoa, não está feliz com o que faz, com o que vive, com o que tem, com o que lhe cabe.” Aí me apresso em relativizar: se bem não faz, mal não faz. Mas não consigo apagar a impressão de que tem algo errado.
Sou uma espécie de Policarpo Quaresma, aquele personagem nacionalista ao extremo de Lima Barreto, que pretendia salvar o Brasil das cultura alienígenas. Defendo a língua portuguesa, mesmo na ciência, contra a hegemonia ideológica do inglês. Coisas assim. Aí vem uma lufada do meu passado antropológico e me diz que as apostas são estratégias de resistência de um povo explorado pelas suas elites. Nada, portanto, mais legítimo e salutar. Respiro aliviado.
Mas já um grilo me diz que era exatamente isso que eu estava denunciando antes e que continuamos na mesma.
Tem dias em que vejo um jogo de futebol e fico abismado com a paixão dos brasileiros por esse esporte. Acompanho o desespero ou a excitação de um torcedor com a derrota do seu time e penso que um clube de futebol pode ser tudo na vida de alguém. Por um segundo, a beleza do futebol, que me envolve e apaixona, é encoberta por uma névoa de tristeza: puxa, essa gente só tem um time de futebol para sublimar as suas energias, depositar o seu entusiasmo, dividir a sua capacidade de sofrer, revelar a sua grande vontade de doação e de amor. Triste povo, entregue aos azares da sorte. Maravilhoso povo, capaz de inventar maneiras de continuar vibrando.
Ah, não uso cueca branca na virada do ano.
Às vezes, nem cueca!