Juremir Machado da Silva

Spencer Leitman comenta História Regional da Infâmia (1)

Spencer Leitman comenta História Regional da Infâmia (1)

Ao contrário de outros conflitos sociais, a Farroupilha não deixou para trás uma mentalidade amarga de ‘causa perdida’ entre a liderança farrapa ou para os riograndenses de hoje.
A paz oferecida pelo Rio através da mediação político-militar de Caxias aos dissidentes remanescentes farrapos em 1844-5 criou condições para uma rápida reintegração da província rebelde de volta ao império brasileiro.
Essa acomodação e a concordância conclusiva dos ‘rebeldes em guerra’ e as conseqüências imediatas dão algumas respostas a muitas das difíceis perguntas que os historiadores tem tratado sobre as causas, a natureza e a longevidade do que os riograndenses chamam de ‘década heróica’.
Ao ler o recente trabalho de Juremir Machado da Silva, “História Regional da Infâmia”, o que me veio rapidamente à mente foi a famosa frase do novelista Americano William Faulkner, cujos trabalhos são com freqüência escondidos sob o manto da Confederação, que diz sobre os estados rebeldes do sul na Guerra Civil Americana: “O passado não está morto. Na verdade, não é sequer passado”.
Com um olho de historiador e o agudo senso de crítica social de um repórter, Machado da Silva não perdeu seu desejo de se engajar e encorajar uma discussão pública sobre um período seminal da história brasileira.
Os farroupilhas são tão complexos e complicados quanto as discussões históricas que giram em torno da Guerra de Secessão nos Estados Unidos. Até mesmo chamar de guerra o que dividiu minha nação está com frequência em discussão. Usualmente os historiadores de hoje se referem a ela como Guerra Civil.
Mais tem sido escrito sobre estes cinco anos do que sobre qualquer outro período da história americana.
Um conhecido historiador calculou um extraordinário total de 50 mil estudos sobre esse conflito, com centenas de outros sendo escritos a cada ano. Os historiadores norte-americanos continuam a escrever e publicar estudos sobre temas familiares, mas ainda importantes: a escravidão certamente continua tendo enorme destaque, assim como grandes personalidades como Abraham Lincoln e Ulysses S. Grant, ou batalhas menos conhecidas, generais e políticos.
Esse ritmo de descobertas históricas é algo positivo. Quanto mais se escreve, mais se descobre, e mais há perguntas e controvérsias para os historiadores enfrentarem.
Às vezes, a própria história é uma guerra entre os acadêmicos. A exploração do passado nos permite conhecer a nós próprios mais claramente e oferece um rumo ao futuro. Como um comentário pessoal para melhor enquadrar os argumentos que seguem, eu acrescentaria que é isso que me leva a me debater quando tento compreender a Farroupilha. Ao longo dos anos, e olhando a Farroupilha desde longe, tenho me fascinado com as diferenças compartilhadas e coisas em comum que nossos dois países experimentaram durante a construção da nação, com a Farroupilha e a Guerra Civil Americana e a Guerra do Texas pela independência.
Por exemplo, Texas e o Rio Grande do Sul compartilham um passado interessante: um território fronteiriço de criação de gado que se viu envolvido com lutas republicanas de independência num período de 10 anos quase no mesmo período histórico, culturas escravagistas, expansão das fronteiras, o que pressionou os nativos, e líderes marcantes com personalidades fora do comum e, sim, fragilidades fora do comum.
O que faz a luta farrapa diferente da Guerra Civil e da Guerra do Texas pela Independência foi que no Rio Grande do Sul os derrotados ganharam controle da narrativa. Historiadores, romancistas e políticos, começando em torno de 1880, iniciaram um esforço para santificar a Farroupilha baseados no conceito de identidade. Essa é uma identidade democrática e republicana incomum que colocou os riograndenses à parte na forma mainstrem de ser política e cultural do Brasil e dos estados espanhóis vizinhos. Ao longo do tempo, essa identidade viu-se dotada de legitimidade; um certo número de instituições particulares, apoiada por uma história que foi épica, é mais apropriada para certo tipo de sociedade. A pesquisa de Machado da Silva sobre os afro-brasileiros durante a Farroupilha deseja que entendamos que este passado é uma mistura volátil de boa vontade e maldade curável.
“História Regional” é um livro incomum porque combina o período dos farroupilhas com comentário social cáustico sobre o Brasil de hoje. Juremir Machado da Silva concentra sua investigação histórica nos afro-brasileiros durante a farroupilha: suas vidas, seu papel na luta, suas muitas outras contribuições, seu destino final e os motivos daquelas vidas que estiveram em suas mãos. Ao fazer isso ele entra no domínio da liderança farroupilha desde os dias da conspiração, antes de 20 de setembro, até o dia infame de novembro de 1844 em Porongos.
É limitado como outros historiadores pelo fato de que os farrapos negros não falam por si. Ao que saiba, não há documentação escrita por qualquer lanceiro negro*, homem de infantaria, ou ordenança. A evidência de Machado da Silva vem dos libertos de seus antigos senhores, comandantes e juízes; e, como historiador habilidoso, usa isso para apresentar seu argumento em favor da politização, sobrevivência e resistência dessa gente.
Juremir deixa claro que os líderes rebeldes não colocam os afro-brasileiros da província sob o mesmo lema da liberdade, igualdade e humanidade apresentado nas manchetes de “O Povo”, o jornal rebelde. O tom deste lema abrigou somente os melhores brancos, os rancheiros e seus aliados profissionais urbanos, enquanto os mestiços, os negros e os índios foram mantidos fora do sol de verão por quase dez estações, ao contrário dos homens brancos em armas que lutaram e puderam obter patentes. A guerra não foi pela escravidão, mas pelo poder local.
Os estancieiros queriam liberdade de ação para determinar seu futuro econômico. Principalmente eles queriam acesso às pastagens nos departamentos do norte do Uruguai, políticas econômicas menos restritivas e políticas fiscais do Rio, a supressão do poder financeiro dos proprietários das charqueadas e comerciantes de Pelotas e Rio Grande. Sem os afro-descentes, a revolução muito provavelmente teria terminado antes. Se os rebeldes tivessem abolido a escravidão, como um pequeno número de líderes farrapos queria, com o objetivo de alistar mais entre eles aos seus exércitos, conforme o coronel Portinho comentaria mais tarde, poderiam ter modificado não só o destino da batalha mas a própria guerra em seu favor. Isso não diminui o legado da luta dos farrapos, mas oferece uma visão de sua filosofia política e do seu comprometimento com a escravidão.
Sobre a abolição e o fim do tráfego negreiro, os líderes farrapos estavam conscientes dos acontecimentos no Uruguai e na Argentina e das pressões que a Inglaterra estava fazendo sobre o Brasil. Eles também conheciam os elementos racial e de classe nas províncias do nordeste brasileiro do Ceará e Pará, no início de 1830, e mais adiante, na mesma década, na Sabinada e Balaiada. Os farrapos, como acertadamente Machado da Silva afirma, utilizaram o gado como moeda para obter os fornecimentos militares necessários de seus vizinhos. Montevidéu tornou-se um campo de luta diplomática, com o cônsul no Rio defendendo os interesses dos emissários farrapos e simpatizantes, que acabaram dependendo da Banda Oriental. Para conduzir a guerra, o governo farrapo, a partir de 1836, emitiu decretos de confisco para tomar a propriedade dos seus inimigos. Isso incluía escravos. A cadeia de comando farrapo e as oportunidades econômicas locais tornaram sua aplicação difícil quando elas se chocaram com os interesses pessoais em busca de enriquecimento.
* Afora o relato do tenente Caldeira, que foi lanceiro sob o comando de Teixeira Nunes e o mais contundente possível na denúncia da traição em Porongos (JMS).